
O que um armário sabe sobre a paixão? Um móvel comprido, largo o suficiente pra conter nossas roupas, alto o suficiente pra nos deixar com raiva e feito de portas. Alguém alguma vez se perguntou se uma coisa dessas entende sobre as complexidades da paixão?
Lucas nunca tinha pensado sobre o quanto um armário pode saber sobre a paixão. De fato nem ele sabia muito bem. Nem sobre paixão nem sobre armários. O que ele passou a ficar sabendo muito bem naquela noite, quando abriu o armário em busca de um agasalho, foi que o mesmo tinha decidido, sem avisar, que não queria mais o cabideiro.
O resultado de tal decisão, para o nosso Lucas, foi abrir o tal rebelde e ver que tudo aquilo que ele tinha pendurado nos cabides jazia no pé do armário criando uma tremenda confusão. E o armário, todo orgulhoso, ainda deixava claro que não tinha desmontado alguma coisa, tinha é quebrado mesmo.
Aquela era uma das poucas noites que o Lucas tinha livre, realmente sem nada pra fazer. Mas ficar sem consertar o armário não dava; o que ele ia fazer com as roupas dos cabides?
Colocou-as em cima da cama com os cabides e tudo e resolveu assim sair de casa procurar o material necessário pra consertar o tal armário. Até ali o conceito “paixão” não tinha nem mesmo pensado em passar perto da sua mente. Talvez na do armário, mas não se sabe.
Foi saindo de casa que Lucas encontrou um grupo de amigos, estavam todos conversando animadamente, junto com eles estavam mais três ou quatro pessoas que ele não conhecia; amigos dos amigos. Não demorou muito pra saber que aqueles desconhecidos não eram dali e não ficariam ali muito tempo, estavam de passagem.
Lucas fez a sua parte, se apresentou e entrou na conversa, tentando esquecer a raiva do armário. Não demorou muito também pra saber que aqueles rapazes, que agora eram novos amigos, estavam esperando o resto do grupo pra voltar pro lugar de onde eles tinham vindo. A informação ficou armazenada, mas Lucas não deu tanta importância à ela.
Depois de um tempo, porém, o papo não tava muito bom, o assunto não agradava e Lucas não sabia mais o que fazer pra sair dali, foi ai que ele lembrou que tinha realmente que arrumar o armário, e pediu licença. Andava de um lado pro outro, entrava em tudo que é canto procurando o que ele precisava e nada de achar. Depois de um tempo acabou por desistir. Ele acharia um lugar pras roupas até a manhã seguinte, quando finalmente poderia comprar o material necessário.
Mas foi voltando pra casa que a dúvida veio. Não sobre o armário, nem sobre a paixão, era só que tinha visto que os seus amigos estavam ainda no mesmo lugar conversando. Não só: o resto da turma que ele não conhecia tinha entrado na conversa.
De longe ele via pelo menos quatro meninas e dois rapazes novos, que não estavam no grupo antes. E ficou pensando no quanto não queria passar por ali, afinal de contas o papo não estava tão bom antes, e não prometia melhorar. Seu medo era de ficar preso a uma conversa chata e sem fim com pessoas mais entediantes ainda sem que pudesse dizer “boa noite, tenho que ir dormir”.
Alguns minutos se passaram e nada do pessoal parar de falar. “Eles não tinham que ir embora rápido?” pensou. Decidiu dar mais uma olhada, afinal de contas ficar parado numa calçada olhando pro asfalto as dez e meia da noite não era um programa dos melhores. Talvez uma conversa chata fosse melhor. No que ele olhou de novo achou, entre os rostos ali presentes, um rosto familiar.
“Ei, peraí. Aquela não é a…” e viu que uma das garotas que tinham chegado era uma que ele conhecia. Não muito bem, mas já tinha trocado com ela um oi com mais duas ou três palavras. Decidiu então arriscar entrar em casa. Na melhor das hipóteses ele passaria despercebido, se ele não conseguisse pelo menos tinha uma vaga possibilidade de puxar um outro assunto com aquela conhecida.
Lucas não conseguiu passar despercebido. E o armário sabia disso. “Você voltou na hora certa!” disse um dos amigos. “A gente tá aqui tentando convencer o Afonso que o teatro Brechtiano e aquela cena do filme do Godard tem uma ligação!”
O sorriso custou a ficar no rosto de Lucas, e a única coisa que passou na sua cabeça foi: “Cinéfilo é uma raça idiota”. O papo então seguiu, Lucas cumprimentou aquela conhecida e felizmente conseguiu dividir o foco da conversa, chamando a conhecida e perguntando onde eles tinham se visto pela última vez, como vai a vida, o que ela fazia e todas aquelas perguntas de praxe.
Os minutos passavam e a conversa ia pra frente sem segredos e cada vez mais descolada. A preocupação de chegar em casa tinha desaparecido e nem do armário Lucas lembrava. Os amigos foram se despedindo aos poucos, mas aquele pessoal que tinha que ir embora não tava nem um pouco a fim de fazer isso.
No meio da conversa com aquela que agora era sua amiga, Lucas percebeu que um dos seus amigos ali de perto tinha ido embora, e que com isso o assunto da dupla do lado tinha acabado. Naturalmente os dois que conversavam ao lado se juntaram com eles num grupo só. E como Lucas não tinha se apresentado a todos, começou com os apertos de mão. A segunda pessoa que tinha entrado na roda era uma das três meninas que ele não conhecia. E foi quando Lucas a cumprimentou que conseguiu ver melhor sua fisionomia, visto que não era totalmente escuro só porque tinham os postes.
No exato momento em que ela disse “Oi, me chamo Theresa!” a palvra “paixão” passou pela cabeça de Lucas pela primeira vez naquela noite. Ele não entendia ainda, mas o armário sempre soube muito bem o que era.
Em poucos minutos o vetor da conversa deixou de ser Lucas-Conhecida e passou a ser Lucas-Theresa. Lucas perguntava, puxava um assunto e Theresa respondia, entrava no assunto. E vice-versa. Na cabeça de Lucas aquilo tudo era muito louco. Não entendia como tinha se apaixonado assim, sem aviso. O mais impressionante era que Theresa se interessava, ria, comentava, perguntava. A conversa fluia tão bem que nem cinco segundos os dois ficaram sem falar ou sem rir.
E chegou o momento que Lucas antes esperava e agora não queria que chegasse: o momento em que aqueles, antes desconhecidos, tinham que ir embora.
No curto, porém intenso papo com Theresa, Lucas pôde descobrir de onde ela vinha, o que fazia, idade, família, gostos e tudo aquilo de mais interessante. Descobriu também que ela era de longe, muito longe. E junto com essa informação ele induziu, corretamente mas contra a sua vontade, que não a veria mais depois que ela partisse.
E o momento chegou. Era tudo o que ele menos queria, mas ele não podia fazer nada (e sobre isso o armário teria dito: “como sempre”). Todos eles começaram a se despedir, ela também. Todos juntos começaram a caminhar até o carro. Nesse momento os dois se separaram, ela foi conversar com os outros enquanto caminhava. Ele ia atrás pensando que aquilo era um sinal que ele deveria parar de criar esperanças, afinal de contas a probabilidade de revê-la era mínima. E se ela não caminhava junto queria dizer que as coisas não voltavam do jeito que iam.
Chegando perto do carro Lucas ficou logo atrás de todos, encostou em um outro carro visinho e observou a cena onde todos se despediam e aproveitavam pra trocar as últimas palavras. Ainda olhando aquela que o tinha feito apaixonar, percebeu que, aos poucos ela se distanciava do grupinho formado e, ainda falando, se aproximava dele, sorrindo e ansiosa pra, finalmente, se voltar pra ele.
Os momentos que se passaram dali em diante foram os melhores. Lucas não se lembrava de um momento mais feliz na sua vida. Ele e Theresa ficaram conversando sozinhos por aqueles últimos minutos, e era praticamente ela que puxava a conversa, que queria falar. Era a prova. Não tinha jeito, ela tinha se apaixonado por ele.
Mas cinco minutos passam rápido e chegou o momento de entrar no carro. Lucas não sabia quando eles se encontrariam de novo, não sabia nem se isso seria possível.
Eles se cumprimentaram ambos com aquele sentimento estranho e particularmente desesperador de deixar alguém que não se quer deixar nunca mais.
E ela foi. Pra sempre. Simples assim.
O que um armário sabe sobre a paixão? Isso infelizmente nem eu sei. Só sei que o armário sabia que Lucas, naquela noite, dormiria em cima dos cabides.