Independente da vitória do São Paulo, de um Papai Noel japonês vencedor da corrida de renas, do Bush na Indonésia, dos sem-teto de Gaza, das mortes no Iraque, de protestos no Tibete, do nevoeiro em Belarus e do incêndio na favela do Sapé, Flávio precisava viajar.

Viajava sempre a trabalho. Sempre. Já tinha o traquejo de voar. Sabia de praticamente todos os banheiros dos aeroportos de Curitiba, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Conhecia várias aeromoças e tomava café com os pilotos.

Porém, desde outubro ele tem ficado bastante nervoso e com muita dor nas costas.

- Dormir nesses bancos de aeroporto não é muito confortável – dizia a quem perguntava por que ele estava sempre com as mãos nas costas e com uma cara estranha.

Esse constante atraso dos vôos o deixava com vontade de sair chutando todos os aviões que encontrasse pela frente. Já tinha perdido seis reuniões bastante importantes e quatro não tão importantes assim.

Dessa vez ele ia de Congonhas até Brasília. Tinha um almoço chique com uns caras chatos e cheios de dinheiro. Não pretendia perder aquilo. Com a passagem na mão foi esperar o vôo.

Não deu outra: atrasou.

Era pra ele sair às seis e meia. Eram sete e quinze e o vôo não tinha saído. Depois de ter esgotado todas as opções possíveis e imagináveis de se ficar sentado ele resolveu dar um pulinho na tela onde os vôos eram mostrados.

Depois de desviar de algumas pessoas que dormiam no chão ele chegou à tela. Em pé e olhando pros horários dos vôos estava uma mulher, aparentemente com a sua idade, cabelos longos e cacheados, olhos de um incompreensível castanho, estatura média, pele nem muito clara e nem muito escura. Bonita. Usava uma saia e uma blusa que sem querer combinavam perfeitamente.

Parou ao lado dela para checar a tela. Ela não parecia muito feliz, mas também não aparentava dor na coluna.

- Quanto tempo você está esperando aqui? – perguntou ela.

Ele se surpreendeu com a pergunta. E gostou.

- Eu? Hã… Umas duas horas e meia. Era pra eu ter saído às seis e meia. E você?

- Nove horas.

- Nove horas!?

- Nove horas. – disse ela, melancólica.

- Uau! É muito tempo! – comentou ele e logo se arrependeu. – Hã… você voa sempre?

- Pelo menos uma vez por semana.

- Trabalho?

- É.

- Eu também.

Ficaram num silêncio que ele achou revoltante. Ela não estava nem aí.

- Já pegou um atraso desses? – perguntou ele.

- Até hoje não.

- Cansativo né?

Ela olhou para ele e novamente ele se arrependeu de ter comentado.

- Tentou ler alguma coisa? – tentou ele mais uma vez.

- Sim, mas até isso acaba cansando. Depois fui comer. Depois fui conhecer melhor o aeroporto.

- Adianta por um tempo.

- Pouco tempo.

- É… E palavras cruzadas?

- Já tentei. Fiz três revistinhas.

Ele não falou, mas nunca tinha feito palavras cruzadas. Não por falta de tentar, ele era péssimo nisso.

- Você vai a alguma reunião? – perguntou ela.

- Sim, se der tempo. E você? Reunião também?

- Não.

- Passeio?

- Não.

- Então…

- Casamento.

Ele não entendeu qual a ligação do trabalho dela com casamento.

- Ah! – disse ele – atrasar pra casamento é complicado!…

Ela respondeu um “é” que o fez desistir de comentar qualquer outra coisa. Viu que o papo não ia pra frente e resolveu voltar ao seu banco.

Já sentado, depois de um tempo, a mulher veio até ele e falou:

- Você trabalha no quê?

Sem entender direito ele começou:

- Bom… Eu trabalho numa empresa…

- Tem alguém sentado nessa cadeira? – interrompeu ela inesperadamente. Ela apontava para a cadeira ao lado dele onde se encontravam suas pernas.

Surpreso ele gaguejou e disse que ela podia ficar a vontade. Tirou as pernas.

Ela foi sentando e dizendo:

- Meu nome é Laís, e o seu?

- Hã… Flávio.

- Oi Flávio! Será que eu posso ficar aqui com você e conversar? Os cinco minutos que agente conversou ali em pé foram os que passaram mais rápido!

Desnorteado e achando que na realidade estava dormindo em cima do braço ele respondeu:

- Sim! Por mim tudo bem! É bom ter com quem conversar nessas horas.

- É! – respondeu ela – Você tem família?

- Não.

- Não? Puxa, que pena… Nem namorada, noiva?

- Nada.

- Humm…

- E você?

- Minha mãe é viva e tenho um irmão.

- Sei.

- Não tenho namorado nem sou casada.

Ta. Aí ele realmente estranhou. Levantou, deu dois pulinhos, se beliscou, viu que aquilo era verdade, olhou para a moça, viu que ela realmente era linda, principalmente sorrindo como estava agora. Sentou novamente.

Eles conversaram por duas horas e meia até que chamaram o vôo dela.

Perdidamente apaixonados um pelo outro a idéia de ir embora não era das melhores. Estavam tão bem juntos.

Porém o problema não era assim tão grande, sendo que eles descobriram que moravam no mesmo bairro e freqüentavam a mesma padaria.

Marcaram um encontro pra quando voltassem e se despediram.

Ainda tentando entender se aquilo não era algum tipo de delírio ou miragem ele voltou ao seu banco e pensou, pensou, pensou. A única coisa que lhe vinha à mente era que tinha achado a mulher da sua vida.

E eu sou testemunha viva (sim, eu, o narrador) do quão inusitado foi o início desse relacionamento e o quanto ele dá certo e dura até hoje.

Como? Ora, fácil: eu sou o cara que estava sentado ao lado do Flávio. E fui eu que não consegui dormir com aquelas duas figuras pateticamente felizes conversando ao meu lado por mais de duas horas!

Quando ela foi embora pensei que teria sossego, foi quando ele voltou e começou a me narrar o apaixonante e inusitado acontecimento.

Desisti de dormir e ouvi. Gostei da história e vi que ele era um cara gente boa e que realmente estava amando, seja lá o que isso signifique.

Desafiando as probabilidades descobrimos que trabalhamos no mesmo prédio e que eu morava no bairro vizinho ao deles.

Atualmente nós, sempre que possível, almoçamos junto com o pessoal do prédio e ele sempre nos diz, todo feliz, como vai sua relação com a Laís.

Os dois se merecem.

Falando em almoço com o pessoal do prédio, foi num desses que eu conheci a Miranda, num episódio talvez até mais improvável que o do Flávio. Mas aí já é história pra outra hora.