7/12/2006Burrice

Com o tempo a gente vai descobrindo que o ser humano pode ser uma criatura estupidamente tapada. Luana sabia disso desde sempre. Talvez por ter sido criada numa família esclarecida. Ou talvez por ter se interessado pelos estudos como ninguém. Porém ela diz que sabe disso pelo simples fato de ter nascido mulher.
Sempre que andava pelas ruas acabava brigando com alguém. Observadora, sempre que via alguma pessoa jogar qualquer tipo de lixo no chão ela catava, chamava a pessoa e, na frente dela, jogava o lixo no seu devido lugar.
Não falava nada. O ato já diz tudo, dizia ela.
Na maioria das vezes a pessoa somente continuava a andar sem ligar para ela. Outras diziam: “Pra quê? Todo mundo joga no chão! Que diferença faz?”. Acontecia (em casos extremos) de pessoas falarem: “Tá bom sua certinha idiota. Vá colocar esse lixo no [censurado]! Vai ser chata assim l…” nesses casos o papo parava sempre por aí. Normalmente o que vinha depois era um belo murro na cara do cretino.
Ela lutava. Não muito bem, mas o suficiente para calar pessoas cretinas.
Mais raro que esse último caso extremo era ela ouvir: “Desculpe!”
De qualquer forma era assim, tudo que ela achava errado ela corrigia de um jeito tal que todos saiam ganhando no final. Que seja um olho roxo, mas ganham.
Eu fui um dos que conheci o punho dela antes de conhecer ela. Pouco agradável.
Contarei um pouco de como foi.
Aquele dia, como também aquela semana, não estava nem um pouco bom. Minha mulher de TPM. Sabe como é né, ser seqüestrado é definitivamente uma situação mais fácil do que enfrentar mulher com TPM. O seqüestrador pelo menos aceita negociar.
De qualquer modo não era só minha mulher que estava dificultando meu dia. O pior era o trabalho. Mas eu não quero entrar em detalhes.
Era horário de almoço e eu fui pro restaurante. Lá estava Luana. Estava com algumas amigas. Eu comi e fui embora. Mas antes disso eu comprei uns chicletes pra ir comendo até o escritório. Nessa hora ela já estava lá fora despedindo das amigas.
Eu saí e abri o chiclete. Vi o lixo e taquei a embalagem nele. Foi aí que eu vi a moça abaixando, pegando meu papel e colocando dentro do lixo. Ela me olhava com uma cara de absoluta reprovação. Eu não entendi e, ao voltar os olhos para o meu caminho, movido por tudo o que me acontecia, eu murmurei: “Faça isso mesmo!”
Depois disso eu senti um cutucão no ombro. Eu virei para checar. Foi quando eu conheci seu punho.
Surpreendido eu caí no chão com a mão no olho. Percebi o vexame e levantei pronto pra deixar o rosto do responsável sem forma.
Foi aí que eu me deparei com o furioso rosto da Luana.
- Foi você?
- Sim! E aí?
- Hã… Nada!… Quer dizer, como é que é isso de você vir pra cima de mim assim?
- E como é isso de você, além de jogar o papel no chão, ainda me dizer uma coisa daquelas? Qual é o seu problema?
E foi ali que eu comecei a conhecer aquela mulher um tanto estranha.
Alguns minutos de papo eu comecei a entender o lado dela. Adorei a idéia e achei que aquela atitude de fazer os outros entenderem o mal que causam fazendo o que eu fiz era o que faltava no mundo.
E não só o que eu fiz! Ela faz tudo o que pode em todos os campos: ecologia, social, tudo que ela pode fazer pela nossa cidade ela faz!
Hoje eu sou um dos adeptos desse sistema. Acho que todos deveriam ser. Imagina o quanto tudo ia ser mais fácil!
Realmente: mudar (ou tirar do coma) a cabeça das pessoas (começando pela nossa) é uma ótima solução para quase todos os nossos (e do mundo) problemas.
A única coisa chata é que até agora eu ainda não tive que bater em ninguém…
