A gente tira de ordem, desorganiza, desordena, desarranja, dissolve, coloca a dama antes do cinco e todas essas coisas que não tem ligação aparente para que o jogo possa acontecer! Seja bem vindo!

Arquivo de Março, 2007

Acho que eu fui assistir “O Cheiro do Ralo” com muita expectativa… Pois é, aí aconteceu aquilo de o filme não ser exatamente ótimo do jeito que eu pensava.

A história fala de Lourenço (Selton Mello), dono de uma loja de penhores frio, cínico e cruel que trata as pessoas que vem vender suas coisas do pior jeito possível. No banheiro do seu escritório (um lugar longe de ser dos mais aconchegantes) o ralo está com problemas, e o cheiro de bosta se espalha por todo o lugar.

Lourenço convive com o cheiro. Convive também com a paixão que nutre pela bunda de uma garçonete de um bar de esquina. Lourenço não gosta de ninguém. É o que ele fala. Mas ao certo ele não gosta é de si mesmo, e procura a razão das coisas ao comprar bugigangas de estranhos. Certo dia um homem lhe oferece um olho de vidro. Desse momento em diante Lourenço dedica-se a mostrar ao olho tudo que acha interessante. Principalmente “a bunda”. E inventa para todos que o tal olho era de seu pai, pessoa que na verdade ele nunca conheceu.

Conforme combate o cheiro do ralo e convive com a bunda e o olho, ele vai percebendo como tudo isso influi em sua vida.

Seu comportamento para com as pessoas que vão procurar dinheiro com ele piora sempre, no sentido de que cada vez mais ele sente prazer em humilhá-las.

O filme prossegue sempre com esses focos: o cheiro do ralo, a bunda, o olho e o comportamento agressivo, frio e cínico do personagem.

Eu saí do cinema com o sentimento de que poderia ter sido mais, de que não foi tão bom quanto eu imaginava. Mas o negócio é que o filme acerta nisso, gostando ou não você não consegue não refletir sobre.

Porém não é que eu não tenha gostado, simplesmente achei que seria ótimo, mas aconteceu que foi bom.

Voltando para a casa, no ônibus, continuei pensando em tudo e no sentido de tudo. Quando de repente tive uma luz! Uma coisa que me ajudou a gostar mais do filme. Eu havia entendido o cheiro do ralo! Sim, ele mesmo! Me veio um significado que eu nunca tinha pensado.

Acontece que a relação dele com o cheiro é a seguinte: ele percebia o cheiro e queria consertar o ralo para que esse parasse de emanar o bendito (pois ele não agüentava mais explicar às pessoas que o cheiro não era dele). Chamou uns encanadores e esses disseram que seria preciso trocar o registro para que tudo voltasse a funcionar. Lourenço porém achava que gastaria muito dinheiro para isso e decidiu que seria melhor cimentar o ralo de uma vez. Foi o que fez.

Depois de um tempo sem o cheiro e de alguns acontecimentos em sua vida, ele percebe que não consegue mais viver sem o cheiro do ralo! Vai lá e destampa o ralo, que volta a emanar o seu odor nojento.

Aí eu comecei a pensar: esse cheiro do ralo caberia perfeitamente no papel das problemáticas atuais! Coisas que vão desde a pobreza até o desprezo pela vida das florestas brasileiras. Perfeito! Isso acontece muito: queremos arrumar o ralo, ou seja, queremos que as desigualdades, os problemas, acabem, pois não queremos que pensem que o cheiro de merda vem de nós. Quando alguém nos fornece uma solução plausível, que cortaria o mal pela raiz, que faria com que tudo desse certo (alguém que chega e fala que temos que trocar o registro), achamos que isso dá muito trabalho, que não vai adiantar (achamos caro) e resolvemos que do nosso jeito é melhor, escondemos, tapamos. Cimentar o ralo não vai resolver o problema, e sim esconder o mesmo.

Mas nós escondemos mesmo assim, é mais fácil.

Depois de um tempo, percebemos que não podemos viver sem o cheiro! Voltamos lá e destapamos o ralo! Precisamos de alguém que esteja em piores condições que nós para que possamos nos sentir bem.

E foi aí que eu descobri a alma de Lourenço. Ele tem que humilhar as pessoas para que possa se afirmar pessoalmente. Ele tem que provar que seu dinheiro compra tudo. Até a bunda.

Resumindo, “O Cheiro do Ralo” mostra absurdamente bem essa faceta do homem: auto-afirmação através da humilhação. Não vivemos sem o cheiro.

E eu digo a vocês: vale a pena assistir. Tirem suas conclusões. Essa reflexão é minha, mas o filme não é só isso! E nem precisa ser isso. Eu ainda estou pensando sobre ele. Quem sabe daqui um tempo eu não assisto de novo e enxergo mais alguma coisa? Aí eu conto aqui.

Sem contar que esse filme é uma pequena obra prima também no sentido estético cinematográfico. É realmente cinema! Não quer ser adaptação de linguagem televisiva (que parece moda no cinema brasileiro atual) e nem teatral. Sem contar com o heroísmo de ter sido feito com apenas 330 mil reais! Para os padrões cinematográficos isso é realmente muito pouco!

Um filme bom. Arte legítima.

Televisão. Mídia. Essas coisas que sempre geram discussões absurdas.

De vez em quando eu me vejo envolvido em bate-bocas cujo assunto é violência na televisão. Sempre sobre a TV aberta. Aí vem um e diz: “Existem programas que só mostram violência! Os jornais de hoje só mostram tragédias! Não se vê notícia boa e blá blá blá…” Aí um outro retruca: “Mas claro! Com o mundo desse jeito e tal e coisa…”.

Daí pra frente todo mundo vai ficar um bom tempo citando programas e suas respectivas características ruins ou boas.

Uma coisa é certa: a mídia explicita a violência. É fato.

Programas, filmes, jornais… Existe, sim, a banalização da violência. E nunca de um modo que nos exponha alguma resolução. Simplesmente pelo fato de que acaba dando audiência.

Aí, certo dia, relendo um dos meus livros de tirinhas do Calvin e Haroldo eu li uma em que ele estava sentado na poltrona assistindo TV. Ele fala assim:

“Violência explícita na mídia. Ela glamuriza a violência? Certamente. Ela nos dessensibiliza para a violência? É claro. Ela nos ajuda a tolerar violência? Pode apostar! Ela atrofia nossa empatia pelas outras pessoas? Diabos, sim!

Ela causa violência?

…Bem, isso é difícil provar.

O truque é fazer a pergunta certa.”

E é isso: tá cheio de gente fazendo a pergunta certa e deixando pra lá a questão da violência na TV… Sem contar que nem é mais só a violência, né? Existem programas que só não colocam um letreiro pra nós dizendo “você é um burro” porque aí a gente ia perceber!

Sem contar o que o Calvin diz sobre ela atrofiar nossas relações pessoais! Aquela coisa de que o tempo disponível para um diálogo familiar, por exemplo, é substituído por minutos na frente da TV.

E ninguém se toca que, como diz Gabriel, o Pensador, “a programação é feita pra manter você na frente, na frente da TV. Que é pra você não ver que o programado é você!”.

Vamos desligar as nossas televisões! Vamos ocupar nosso tempo de um modo mais construtivo! A TV está violenta? Trata-nos como antas? Podemos mudar! Mudar não: desligar!

Pra que dar audiência pra um bando de gente trancada numa casa? Coisa mais besta!

E se mesmo assim você quer assistir TV. Ainda existem programas bons. Quais? Um dos que eu assisto se chama Recorte Cultural. Esse sim vale a pena! E existem outros da TVE que também são. Tem também a TV Cultura. Que eu só não assisto porque não pega em casa.

Mas de qualquer forma: Leia um jornal! Leia um livro! Assista um (bom) filme! Vá ao teatro! Converse com seus pais! Proponha assuntos inteligentes aos seus amigos! Não seja idiota! Seja a diferença! Faça a pergunta certa!

Esse vídeo aí em baixo é de dois comediantes norte-americanos. Os dois tem nomes Árabes. O primeiro chama Ahmed Ahmed e o segundo eu não lembro! Não achei o vídeo legendado, mas quem não souber inglês e se interessar alugue “Fahrenheit 9/11″ e procure nos extras esse vídeo de comediantes.

MUITO bom! Os dois são ótimos, com tiradas que só esses comediantes stand-up conseguem! Principalmente o Ahmed! Além das tiradas vocais ele tem umas expressões hilárias! A parte em que ele conta dos dois brancos quando ele teve que sair do avião, a parte da moça que pega a identidade dele no balcão; enfim: muito bom!

Pode ser que no final dê umas travadas…

15/03/2007Heróis

“E agora vamos falar com os nossos heróis…”

Essa foi a saudação infeliz usada por Pedro Bial ao se dirigir aos participantes do programa Big Brother Brasil: Se alguém se encontrar com ele, pergunte-lhe, por favor, qual a definição de “herói” no dicionário dele…

No meu, Herói é uma coisa muito diferente…

Herói é a Dra. Vanessa Remy-Piccolo, jovem pediatra francesa de 28 anos de idade. Ela que abriu mão do seu conforto para servir na África, como voluntária do programa Médicos sem Fronteiras.

 

Ela que nos relata que cansou de atender crianças que com um ano de idade pesavam em torno de 3,6 kg, que corresponde ao peso de um recém-nascido.

Herói que relata que muitas mães chegam até ela dizendo que levaram os alimentos doados para casa, mas que seus filhos parecem que desaprenderam a se alimentar e se recusam a abrir a boca.

 

Herói é Martial Ledecq, cirurgião voluntário do Médicos sem Fronteiras, que, arriscando a própria vida, atende, em meio a bombardeios, os civis feridos num Hospital de Tebnine, sul do Líbano, vítimas de uma recente guerra que de tão nefasta não poupou nem os observadores da ONU, e nem mesmo as equipes de ajuda humanitária internacional.

Herói, meu caro Pedro Bial, é quem, nestes dias desleais em que vivemos, enxerga o sofrimento alheio, e se prontifica a amenizá-lo no que estiver ao seu alcance.

Atendimento em clínica móvel, Muzafarabad, Paquistão.

 

Herói são aqueles que abrem mão dos confortos pessoais em prol do coletivo, aqueles plenos de uma vida na qual a paixão sobrepuja a omissão…

Campanha de vacinação para prevenção de meningite, em Gonder, Etiópia.

 

Herói é aquele que é solidário, que partilha dons e bens…

Voluntária do MSF, trabalhando por um mundo melhor, na Indonésia.

 

Mas há também muitos heróis que falam a nossa língua…

E não são as “celebridades” instantâneas do BBB. Embora estejam pertinho da “casa mais vigiada do Brasil”.

Heróis como Jacinta, enfermeira do projeto Meio-fio, promovido pelo Médicos sem Fronteiras no Rio de Janeiro, que examina mãe e filho, moradores de rua.

Heróis como a médica Renata, que visita aqueles que nem aos precários serviços de saúde pública têm acesso, como este morador de rua, no Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro.


Heróis como o educador Altayr, que partilha seus conhecimentos com uma moradora de rua no centro do Rio de Janeiro.

Heróis como a psicóloga Andréa, que, a exemplo da pediatra francesa, semeia saúde e esperança, por onde passa.

Heróis como a enfermeira Eriedna, que aqui atende o Sr. Nilton no núcleo de atendimento do Médicos sem Fronteiras.

Heróis como Sr. Nilton, que com o apoio recebido conseguiu encontrar um trabalho, e hoje não mais mora nas ruas.

Heróis como Sr. João, um dos moradores de rua atendidos pelo projeto Meio-fio, que relata:

“De manhã eu começo a circular igual a um peru doido. Eu só paro na hora do almoço e depois, à noite, pra dormir. Mas catar latinha não é fácil não. Hoje em dia tem uma concorrência muito grande pelas ruas”.

 

Será que o Sr. João resistiria à tentação de catar as latinhas e garrafas de bebida vazias, com as quais a produção do BBB tenta a todo custo embriagar os participantes do programa nas festas que promove?

Sr. João provavelmente juntaria as latas sim, escondidas num canto da casa, para quando a fama instantânea passar…

Quando um cara que já foi dos mais brilhantes repórteres do país, vibra e discute os namoricos, as intrigas e as futilidades do programa BBB como se fossem o assunto mais importante da atualidade, é sinal de que algo está lamentavelmente errado…

É preciso acreditar que um outro mundo é possível.

E pequenos gestos poderão produzir mudanças significativas.

Um ato simples, que certamente poderá resultar em benefícios concretos, será o de iniciar uma campanha de conscientização para que ninguém mais atenda aos apelos melodramáticos de Pedro Bial, e que, ao invés de efetuar ligações para o programa Big Brother, contribua para entidades que atuam em prol de causas sociais.

A cada paredão, com milhões de ligações para o programa, os centavos e centavos pagos formam rios de dinheiro, e engordam ainda mais as já milionárias fortunas dos donos, diretores e apresentadores televisivos…

Se você tem algum amigo, familiar ou conhecido que liga para o programa, aconselhe-o, ao invés, a doar a quantia para algum programa humanitário.

Ao invés de ligar para o Big Brother Brasil, contribua com alguma instituição que realmente precisa de ajuda.

E não faltam entidades sérias que contam com o nosso apoio para prosseguir com suas nobres atividades.

Listagem de algumas outras entidades e projetos: www.unicef.org/brazil/lista_projetos06.htm

Certamente existe alguma instituição de amparo aos necessitados atuando na tua cidade.

Os recursos destas instituições provém, na sua maior parte, do apoio voluntário - material e humano - necessitando, portanto, de nosso auxílio e colaboração para que possam fazer diferença e recuperar o valor da vida dos tantos destituídos, excluídos da sociedade.

 

 

 

 

Quem são os teus heróis?

Quem são as tuas heroínas?

Vamos deixar a cargo dos familiares dos participantes, que têm interesse particular no assunto, decidir se fulaninho ou fulaninha deve ou não sair do programa.

Colabore com quem realmente precisa de você.

[esse texto não é meu... recebi por e-mail e gostei]

 

Está aqui o que faltava: Valores do Cinema!

Hã? Calma lá, já explico! Criado pela Editora São Paulo (é isso?), o projeto Valores do Cinema (em DVD e fichas de acompanhamento) procura educar através do cinema! Como? Ele discute temas como solidariedade, honestidade, tolerância, sinceridade, criatividade e outros através de filmes como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, “Show de Truman”, “Forrest Gump”, “Tomates Verdes Fritos”, “Shrek”, “Chocolate”, “Cinema Paradiso” e muitos outros!

O DVD mostra trechos dos filmes e entrevistas com pessoas sobre o tema em questão, tudo isso com um acompanhamento externo.

Putz! Muito bom! Era mesmo o que estava faltando.

O cinema atinge a maioria das pessoas que dizem que vivem nesse mundo, e mostrar que ele está aqui para alguma coisa que não seja apenas entretenimento é o que, talvez, falte. Desse modo então…

Imaginem: são valores fundamentais da sociedade demonstrados por filmes que vimos e que achamos ótimos! Ou não… O que conta é que são filmes populares, de fácil acesso!

É uma iniciativa das melhores, eu adorei! Só não comprei os DVDs do projeto porque eu só achei na língua em que foi feito: espanhol. O negócio é esperar. Ou quem sabe não: sempre que um filme possibilitar, vamos colocar em discussão esses temas e como o filme os trata! Já é um começo!

Aposto na idéia de que isso vai nos ajudar a abrirmos a cabeça e, quem sabe, a nos levantarmos de nossa confortável poltrona e fazermos alguma coisa para mudar a situação do lugar onde vivemos! E quem sabe até fazer um filme!

Para conhecer a iniciativa, clique aqui!

Antes de mais nada eu queria agradecer os que estão gostando dos vídeos que eu tô postando! E queria falar que se alguém tem alguma sugestão, é só falar!

E pra quem acabou de chegar de Saturno, o vídeo aí em baixo é muito engraçado! Esse comediante dança pequenos trechos de várias músicas dos mais variados estilos e épocas, cada uma de um jeito diferente e uma mais engraçada que a outra!
O vídeo desse cara está com 43512444 visualizações (sem contar cópias postadas por outros usuários do YouTube)! Por isso que eu digo que é difícil não conhecer!
Assistam que vale a pena!
As que eu mais dei risada: uma que começa em 1:08 min. Depois uma em 1:50. Outra que começa nos 2:38. Em 3:13 e mais uma em 3:44. Mas, a melhor seqüência é entre 4:23 e 5:01! Com destaque para a dança da música dance que eu acho que chama “What is love”! Uma tirada genial! MUITO BOM!!!

(Ah… Essas marcações de tempo só servem para quem for assistir o vídeo NO YouTube, porque aqui no embaralhando a contagem de tempo no vídeo é regressiva. Eu esqueci disso e também não tô a fim de ficar corrigindo tudo. Quem quer saber de que partes eu estou falando é só clicar no vídeo e assistir pelo YouTube!)

Agora eu coloco uma pergunta que fizeram nos comentários do vídeo no YouTube e a resposta que um outro internauta deu que eu gostei. Que é mais ou menos o que eu responderia:

- How is this funny? I know i sound like an ass but whats so funny?
- Because this guy goes through like 50 years of music and has a dance for each one of them. It is something most people probably couldn’t do. :)

5/03/2007God is a DJ!

Assistam esse aqui! Tem 10 minutos, mas vale a pena! Super bem feito!

Esse vídeo aqui estava no Clique. Resolvi postar aqui!

Assistam… É IMPRESSIONANTE!!! PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL!!!

E aí? alguém arrisca um chute sobre como eles fazem isso?

1/03/2007CORRE! (6)

Bom, como vocês lembram do capítulo anterior, eu, a Fabiana, o Fábio e o tal cara de preto estávamos fugindo quando fomos cercados. Realmente não tínhamos saída. Mas isso era só uma das muitas coisas que se passavam pela minha cabeça.

As minhas maiores dúvidas eram: que diabos o Fábio estava fazendo com a Fabiana e quem diabos era aquele cara grande de preto!

- MUITO BEM, ESPERTINHOS! A FARRA ACABOU! VOCÊS ESTÃO PRESOS! – Gritou no megafone o sargento, interrompendo minhas sinapses.

Ela estava se aproximando de nós. De repente o cara de preto tirou os óculos escuros e mostrou seus dois olhos castanhos claros. Sua expressão tinha mudado. A confiança tomou o lugar do medo em sua face. Eu olhava pra ele só pensando no que ele iria nos meter agora. A Fabiana, que olhava sem esperanças para as algemas dos policiais olhou de relance para o cara e depois olhou de novo. Um leve sorriso se materializou na face dela. O Fábio estava curvado, olhando pra baixo e tentando normalizar a respiração.

Foi quando o cara de preto deu um passo em direção aos policiais e falou:

- OK, sargento! Obrigado pela ajuda! De agora em diante eu assumo!

O sargento olhou para ele com aquela expressão de quem não está entendendo nada.

- Como assim? – falou.

- Bom… Eu só vou precisar de mais duas algemas… Assim vai ser mais fácil leva-los.

- Espera aí, amigo! – falou o sargento – que papo é esse de “de agora em diante eu assumo”? Quem você pensa que é? Os oficiais aqui somos nós!

- Ah! – exclamou o cara – pelo visto vocês não estão sabendo!

- Sabendo de quê?

- Ora! Esse caso é de repercussão nacional! E agora está nas mãos do governo!

- Vamos parar com essa bobagem! Coloque as mãos na cabeça!

- OK, então tá! – o cara de preto colocou rapidamente a mão no bolso e tirou uma identificação. Entregou para o sargento – eis aqui quem eu sou!

O sargento pegou a identificação e, sem acreditar direito no que via, falou em voz alta:

- Polícia Federal? Mas…

- Sim. – cortou o cara de preto. E estendendo a mão para cumprimentar a policial, continuou:

- Oficial Cardoso, segundo regimento de Brasília. No caso há uma semana.

Com uma expressão incrédula, a policial cumprimentou o Cardoso. E ele continuou:

- Bom, agora me ajude com eles, eu só preciso de mais duas algemas. Eu tenho uma aqui comigo. Estava correndo atrás deles sozinho, mas a blazer da minha equipe deve chegar aqui em cinco minutos. Vocês me ajudem a algemá-los e podem ir embora tranqüilos!

Boquiabertos, os guardas ajudaram e, como se estivessem vivendo um delírio, aos poucos foram embora. A policial sargento ficou com a gente.

Se dependesse de mim, naquela hora eu estaria gritando e xingando o desgraçado do cara de preto! Como nós nos deixamos pegar desse modo?

De qualquer forma, eu não sei por que a Fabiana não demonstrava nenhuma gota de desespero. E eu então comecei a acreditar que tudo aquilo fazia parte de algum plano. Por mais idiota que fosse.

Cinco minutos se passaram e a tal blazer não chegou. O Cardoso pegou o celular, discou um número e falou:

- Oi… Cadê vocês?… Ah… Sei… Vamos logo com isso! Eu não quero esperar mais! – e desligou.

Dois minutos depois a blazer cruzou a esquina e veio em nossa direção.

Nem é preciso falar que nessa hora eu já não entendia nada do que acontecia e não via por que não sair correndo.


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