30/03/2007Filme: O Cheiro do Ralo

Acho que eu fui assistir “O Cheiro do Ralo” com muita expectativa… Pois é, aí aconteceu aquilo de o filme não ser exatamente ótimo do jeito que eu pensava.
A história fala de Lourenço (Selton Mello), dono de uma loja de penhores frio, cínico e cruel que trata as pessoas que vem vender suas coisas do pior jeito possível. No banheiro do seu escritório (um lugar longe de ser dos mais aconchegantes) o ralo está com problemas, e o cheiro de bosta se espalha por todo o lugar.
Lourenço convive com o cheiro. Convive também com a paixão que nutre pela bunda de uma garçonete de um bar de esquina. Lourenço não gosta de ninguém. É o que ele fala. Mas ao certo ele não gosta é de si mesmo, e procura a razão das coisas ao comprar bugigangas de estranhos. Certo dia um homem lhe oferece um olho de vidro. Desse momento
Conforme combate o cheiro do ralo e convive com a bunda e o olho, ele vai percebendo como tudo isso influi em sua vida.
Seu comportamento para com as pessoas que vão procurar dinheiro com ele piora sempre, no sentido de que cada vez mais ele sente prazer em humilhá-las.
O filme prossegue sempre com esses focos: o cheiro do ralo, a bunda, o olho e o comportamento agressivo, frio e cínico do personagem.

Eu saí do cinema com o sentimento de que poderia ter sido mais, de que não foi tão bom quanto eu imaginava. Mas o negócio é que o filme acerta nisso, gostando ou não você não consegue não refletir sobre.
Porém não é que eu não tenha gostado, simplesmente achei que seria ótimo, mas aconteceu que foi bom.
Voltando para a casa, no ônibus, continuei pensando em tudo e no sentido de tudo. Quando de repente tive uma luz! Uma coisa que me ajudou a gostar mais do filme. Eu havia entendido o cheiro do ralo! Sim, ele mesmo! Me veio um significado que eu nunca tinha pensado.
Acontece que a relação dele com o cheiro é a seguinte: ele percebia o cheiro e queria consertar o ralo para que esse parasse de emanar o bendito (pois ele não agüentava mais explicar às pessoas que o cheiro não era dele). Chamou uns encanadores e esses disseram que seria preciso trocar o registro para que tudo voltasse a funcionar. Lourenço porém achava que gastaria muito dinheiro para isso e decidiu que seria melhor cimentar o ralo de uma vez. Foi o que fez.
Depois de um tempo sem o cheiro e de alguns acontecimentos em sua vida, ele percebe que não consegue mais viver sem o cheiro do ralo! Vai lá e destampa o ralo, que volta a emanar o seu odor nojento.

Aí eu comecei a pensar: esse cheiro do ralo caberia perfeitamente no papel das problemáticas atuais! Coisas que vão desde a pobreza até o desprezo pela vida das florestas brasileiras. Perfeito! Isso acontece muito: queremos arrumar o ralo, ou seja, queremos que as desigualdades, os problemas, acabem, pois não queremos que pensem que o cheiro de merda vem de nós. Quando alguém nos fornece uma solução plausível, que cortaria o mal pela raiz, que faria com que tudo desse certo (alguém que chega e fala que temos que trocar o registro), achamos que isso dá muito trabalho, que não vai adiantar (achamos caro) e resolvemos que do nosso jeito é melhor, escondemos, tapamos. Cimentar o ralo não vai resolver o problema, e sim esconder o mesmo.
Mas nós escondemos mesmo assim, é mais fácil.
Depois de um tempo, percebemos que não podemos viver sem o cheiro! Voltamos lá e destapamos o ralo! Precisamos de alguém que esteja em piores condições que nós para que possamos nos sentir bem.
E foi aí que eu descobri a alma de Lourenço. Ele tem que humilhar as pessoas para que possa se afirmar pessoalmente. Ele tem que provar que seu dinheiro compra tudo. Até a bunda.
Resumindo, “O Cheiro do Ralo” mostra absurdamente bem essa faceta do homem: auto-afirmação através da humilhação. Não vivemos sem o cheiro.
E eu digo a vocês: vale a pena assistir. Tirem suas conclusões. Essa reflexão é minha, mas o filme não é só isso! E nem precisa ser isso. Eu ainda estou pensando sobre ele. Quem sabe daqui um tempo eu não assisto de novo e enxergo mais alguma coisa? Aí eu conto aqui.
Sem contar que esse filme é uma pequena obra prima também no sentido estético cinematográfico. É realmente cinema! Não quer ser adaptação de linguagem televisiva (que parece moda no cinema brasileiro atual) e nem teatral. Sem contar com o heroísmo de ter sido feito com apenas 330 mil reais! Para os padrões cinematográficos isso é realmente muito pouco!
Um filme bom. Arte legítima.

