A gente tira de ordem, desorganiza, desordena, desarranja, dissolve, coloca a dama antes do cinco e todas essas coisas que não tem ligação aparente para que o jogo possa acontecer! Seja bem vindo!
Lá estava eu assistindo TV, acompanhando a ginástica artística no Pan quando, no meio da transmissão, entre um comentário e outro o narrador começa a falar que um avião tinha acabado de bater num hangar no aeroporto de Congonhas.
Na mesma noite, duas ou três horas mais tarde ouvi os primeiros comentários de que este poderia ser o pior acidente da aviação nacional.
Calma lá! O pior acidente da história da aviação nacional não foi agora a pouco? Se eu não me engano ele não aconteceu no ano passado?
Não, eu não estava enganado… Mas quando eu acordei na manhã seguinte o acidente de um ano atrás já tinha perdido o primeiro lugar no pódio…
Tá, o que é que a gente faz numa hora dessas? Cento e oitenta e tantos mortos. Gente para discutir o assunto e descobrir o que houve tem aos montes. Colocar a culpa em alguém ou em alguma coisa já é de praxe, e não há quem não faça isso. E então?
Fazer a nossa parte para que se tomem providências! Sim… Mas o que seria? Hummm… Difícil. Pelo menos para mim.
Sinceramente, o que eu faço é rezar. Sim: rezar.
Rezar pelas vítimas. Rezar para que as famílias e amigos das vítimas encontrem um pouco de paz e tranqüilidade nesse momento tão difícil. Rezar para que os políticos façam sua parte por completo. Rezar para que a situação encontre um equilíbrio.
E diante de uma tragédia como essa, rezar para que não aconteça mais.
Acho que é o que eu posso oferecer: minhas orações.
Provavelmente vocês já devemter assistido aquela propagando na TV em que uma pessoa, dentro de um apartamento, vê um beija-flor voando perto da sacada e fica maravilhado; chama todos os parentes pra ver e todos admiram aquilo como se fossem crianças de rua assistindo as pessoas comendo através da vitrine de um McDonald’s.
Uma segunda propaganda desse mesmo produto mostra o interior de um escritório de um prédio. A vista da janela praticamente dá para o horizonte. De repente uma pessoa percebe o pôr do Sol e chama a atenção de todos, que se maravilham com a cena.
As propagandas, se não me engano, são de algum carro aí. E ambas acabam com uma frase mais ou menos assim: “Você precisa de mais contato com a natureza.” E continuava falando do carro.
Minha primeira reação após essas propagandas foi algo do tipo: “é verdade, né? Hoje em dia falta mesmo esse contato com a natureza…”. e tudo ficou por isso mesmo..
Foi quando, cetro dia, na minha república, um amigo meu, do nada, grita: “Ei! Venham ver isso!”
“Isso o quê?” Perguntei. “O pôr do Sol!” E aí pronto: fomos todos até a janela.
“Não é um dos mais bonitos que vocês já viram?” Continuou meu amigo, logo seguido por comentários do tipo: “Verdade!” “Bonito mesmo!” “Show…”
Era realmente bonito. Eu elogiei também. Mas não era melhor do que o pôr do sol na minha cidade;
E foi aí que eu lembrei da propaganda. “Você precisa de mais contato com a natureza.” E isso ficou na minha cabeça.
De lá até o momento em que eu resolvi escrever isso aqui, várias reflexões sobre o assunto me assombraram.
Coisas como a situação do rio Tietê até os momentos mais natureza da minha vida. Tendo como pano de fundo para tudo isso a tal frase da propaganda.
OK. Certo. Para organizar as coisas eu decidi deixar de lado as destruições ambientais que nós desencadeamos e pensar somente na raiz da questão: a natureza é (tirando o imprescindível valor biológico) realmente necessária para nós?
Sim. Essa foi a resposta. E foi aí que eu comecei a lembrar e pensar:
Nada como admirar o pôr do sol da minha cidade. Ou talvez o pôr do sol na praia. Ou quem sabe as trilhas de uma hora na serra litorânea onde uma brecha entre as árvores mostra a imensidão azul do mar.
Ou talvez a imensa os imensos campos de Mato Grosso do Sul, onde a vista se perde rodeada de tanta beleza; seguida depois de lindas grutas, lagos subterrâneos, crateras, buracos, tucanos, jacarés, araras, águas transparentes, peixes…
E ainda sentir no corpo uma queda d’água de três metros no meio de uma floresta depois de horas subindo um rio entre as pedras.
Achar uma praia com dunas depois de muito sol na cabeça.
Pedalar quilômetros por trilhas desconhecidas, achar lugares misteriosos no caminho. Ter que carregar a bike para passar por um rio. E depois de horas pedalando em baixo do sol de uma hora da tarde numa ilha beirando o mar achar uma ducha natural de graça.
Nadar num rio cercado por hectares de mata. Mergulhar nesse rio marrom para tirar galhos de uma galhada presa. Enfrentar a correnteza. Ser acompanhado por pássaros enquanto se desce o rio…
Imaginem que estava eu em um dia como outro qualquer, ou quase. Acordei, tomei café, peguei minhas coisas, fui pra aula. Último dia de aula. Saí da aula e bateu aquela vontade de fazer alguma coisa de diferente, afinal eu teria a tarde inteira sem fazer nada.
Resolvi ir ao cinema! Depois do cinema eu encontrei uma amiga minha e a gente saiu pra beber um pouco. Já eram quase oito horas e estávamos saindo do bar quando meu celular toca. Era outra amiga. Eu atendo e ela começa a falar: “Luis! Eu ganhei dois convites para uma apresentação no Citibank Hall e preciso de alguém pra ir comigo! Vamos?”
“Como assim? Que apresentação?” perguntei.
“Então… Eu não sei direito… Eu nunca ouvi falar… Mas eu ganhei os convites! Vamo lá? Seguinte, eu tenho que pegar os convites até oito horas, então eu tô indo pra lá agora e a apresentação começa às nove e meia, a gente combina nove horas lá?”
“Pode ser…” respondi. “Pode ser, sim.”
“Certo!” ela disse. “Nove horas a gente se vê!”
E desligou.
Eram oito e dez. Eu tinha cinqüenta minutos pra ir pra casa, tomar um banho, me arrumar, descobrir quantos e quais ônibus pegar até o Citibank e, afinal, ir até lá!
Indo pra casa quase correndo começou a fazer que ia chover.
Me arrumei e saí de casa as oito e meia. Fiz minhas deduções e resolvi onde pegar o ônibus. Indo até o ponto começou a garoar. Pronto, já estava me vendo todo ensopado e não chegando à tempo. Mas continuei mesmo assim.
Dei sorte. Cheguei no ponto e o ônibus chegou junto. Vi na placa o nome da Av. Ibirapuera. Era a avenida onde fica o Citibank. Ou quase. Um quarteirão longe dela. Perguntei pro motorista até que altura dela ele ia.
“Anda ela toda.”
“Ótimo! É esse.” pensei.
Faltavam vinte minutos pras nove e eu ainda estava pensando que o trânsito não ia ajudar e eu não ia chegar. Mas até que deu! Nove e dez eu cheguei no ponto da Ibirapuera que precisava. Desci e não estava chovendo! Cheguei no Citibank Hall as nove e quinze. Minha amiga já estava lá com os ingressos na mão. Entramos e começamos a pensar: onde estamos?
O palco estava bonito. Parecia simples, mas era bonito. A apresentação começou e o palco foi tomado por uma nuvem de gelo seco e uma luz toda especial. Até ali tudo ótimo.
De repente entra no palco um palhaço com uma corda na mão. Não um desses palhaços de circo. Ele vestia uma roupa única amarela, tinha o cabelo grande todo para o lado e maquiagem de palhaço só um pouco diferente. O sapato era como uma pantufa vermelha grande.
Ele entrou todo triste e foi devagar até o meio do palco. Parou. Virou para o público e mostrou a corda. Ela tinha um nó de forca. Ele colocou a corda no pescoço e começou a puxar o outro lado até achar a outra ponta.
“Meu Deus! O que é isso?” pensei.
E ele puxava a corda quando de repente havia mais corda. Ele puxava e continuava vindo corda, e mais corda e nunca que chegava a outra ponta! Comecei a achar graça. E ele continuava puxando e parava, olhava para o público sem entender nada e continuava puxando, rápido, devagar, e a outra ponta não chegava nunca!
À essa altura eu já tinha gostado do negócio.
De repente a corda esticou e prendeu em alguma coisa dentro da coxia. O palhaço estranhou, parou, olhou para o público, para a outra ponta, sem saber o que havia prendido nela. Começou a puxar devagarinho até que aparece um outro palhaço com a outra ponta da corda enrolada no pescoço! hehehe!
Adorei! Aí eles desistem disso e saem de cena.
Daí por diante segue no palco um espetáculo só com palhaços (clowns, como se diz no meio do teatro, que é algo um tanto mais profundo que qualquer palhaço). Era esse palhaço amarelo o único diferente. Os outros eram todos verdes e tinham chapéus longos e pés longos. Ótimos.
Com efeitos especiais perfeitos, músicas ótimas (todas com um clima meio sonho) e luzes que davam o tom.
Os atores eram simplesmente fantásticos. Com movimentos lentos e às vezes somente parados no palco faziam todos darem risada! Simples trocas de olhares entre eles eram suficientes para ganhar o público por vários minutos a fio.
Eles faziam passar pelo palco bolas de neve, bolas gigantes transparentes com alguém dentro, casinhas pequenas com chaminés ligadas…
Cobriam o público com teia de aranha, jogavam bolas imensas (mesmo, não caberiam em uma sala qualquer) no meio do público, passavam no meio, pegavam pessoas e levavam para o palco. Faziam chover no palco, faziam nevar no palco e no público, faziam tempestades de neve com direito a muito barulho, muito vento e muita “neve”.
Havia momentos em que uma só luz pequena iluminava o palco e só um palhaço (o de amarelo) ficava em cena representando alguma coisa (a melhor dele está no vídeo desse post, logo abaixo, onde ele contracena com um ‘cabide’).
Acabou o espetáculo e eu não acreditava. Como assim isso foi tão bom? O que foi isso?
Saí de lá pensando em tudo, nem tinha muito que falar…
Cheguei em casa no outro dia e fui logo pesquisar o tal do espetáculo.
Quase nem acreditei quando vi que esse tal de Slava é só considerado o melhor clown do mundo!!! O cara é russo e manda muito, muito mesmo!!! Eu li até que é ele quem as apresentações de palhaço do Cirque du Soleil! Tava explicado! Não podia ser outra coisa! O tal palhaço de amarelo era ele! Não acreditei quando me dei conta que assisti à um espetáculo dele DE GRAÇA!!!
O espetáculo era algo que te tirava desse mundo. Realmente você viaja pelas entranhas da imaginação e das sensações de um modo que só ele conseguiu até agora. Uma poesia, uma sensibilidade, uma perfeição, uma magnitude. E isso sem nem precisar falar! Era o tempo inteiro mudo!
Mas quem disse que ele não falava…
Um trabalho corporal perfeito. As duas horas passam como dois minutos. E eu saí querendo mais! Mais! Mais!
Aquilo valeu o dia! Valeu tudo!
Super empolgado eu contei tudo pra minha família. Minha tia, ouvindo tanto e vendo o brilho que o espetáculo do tal do Slava colocou no meu rosto, falou:
“A arte encanta.”
Aproveite para conhecer mais clicando nos links do texto!
PS.: um comentário sobre: ‘SLAVA’S SNOWSHOW is to clowning what Cirque du Soleil is to the circus…’ Variety