17/08/2007Submergindo
O lambari, preocupado com o futuro do riacho, resolveu arrumar tudo. Queria dar uma varrida na terra do fundo, uma escovada nas algas, uma lustrada nas pedras.
Mas foi quando começou que se deu conta do quanto ia ser complicado. Percebeu que não tinha um tamanho que favorecia. E então resolveu chamar os outros peixes.
- É o seguinte – disse o lambari – todos vivemos aqui desde sempre, e como a correnteza é fraca, poucos se mudaram. Por isso eu acho justo que todos ajudem na arrumação!
No meio da reunião, como que por acaso, bem no meio da roda de discussão que foi formada pelos espécimes subaquáticos, surgiu calmamente, vindo de cima, um ser completamente estranho em um meio de transporte até então desconhecido.
Tratava-se de um ser roliço, fino, curto, marrom, sem qualquer orifício ocular ou degustativo e que se comunicava através de uma estranha linguagem corporal distorcida.
Seu meio de transporte era mais único e estranho que o próprio ser. Era algo parecido com uma linha aparentemente infinita que vinha da superfície e além. A ponta era brilhante e curva. E atravessava curiosamente o ser.
Quem estava na reunião, depois do susto, ficou absolutamente intrigado e sem saber o que fazer.
O lambari, já pensando no desequilíbrio que a situação traria, tomou a iniciativa:
- Seja bem vindo à redondeza! Você veio de cima?
E o tal ser continuava a se comunicar de uma forma contorcida e sem palavras.
- Ele não fala a nossa língua! – gritou o baiacu.
Imediatamente o ser começou a baixar o ritmo de comunicação. Baixou até ficar imóvel.
O lambari, depois de um tempo, se aproximou dele e nenhuma reação se esboçou. Chegando mais perto ele foi contaminado por algo na água que o fez ver que aquele ser, na verdade, era apetitoso. Segundos depois todos os outros perceberam também e, como que por instinto, atacaram o que era um ser e se mostrou comida. E devoraram o que puderam.
De repente, quando o alimento estava praticamente sumido, o tal meio de transporte subiu de volta à superfície num tranco mortal. Todos saíram de perto do local o mais rápido possível e tremendamente assustados. Por sorte ninguém estava perto o suficiente para ser puxado.
- Na verdade então… – disse o lambari – será que… só pode ser!… Sim! Essa coisa que veio transportando o tal ser que na verdade era comida, é o verdadeiro ser vivo! Usou de um alimento para nos enganar e nos devorar!
Todos acharam que essa versão dos fatos era realmente a que mais fazia sentido e então se deram conta de que foram enganados e quase extintos!
Cada peixe ali presente foi para seu canto pensando sobre aquele fato bizarro, com medo e um certo receio. Em silêncio. Até o lambari.
No dia seguinte o lambari, preocupado com o futuro do riacho, resolveu arrumar tudo.

