1/09/2007Mais uma
A – Você lembra em que ano foi o meu casamento?
B – Hummm… Não lembro bem…
A – 2003?
B – Deixa eu lembrar…
A – 2002… 2002/2003… Talvez seja por aí.
B – Será? Não foi em 2001? Talvez tenha sido 2000/2001.
A – Será? 2000?
B – Eu acho.
C – Não! Não foi 2000 não!
B – Ah, é?
C – É! Porque em 2000 eu saí da faculdade e no final de 2001 eu me lembro de você e a Paula juntos.
A – Lembra, é? Hummm… Pode ser… Mas como é que eu vou ter certeza?
B – Se você não lembra mesmo, escreve “eu te amo” no lugar da data!
A – É… Pode ser…
B – Ou “eu te adoro”, “você é linda”… Essas coisas.
A – Pode ser.
B – Bom, Luis, agora eu vou te anestesiar e a gente começa logo
Eu – É… Na medida do possível!
E foi assim que começou a minha cirurgia de implante dentário. Os personagens A e B eram os dois dentistas que fizeram da minha boca um campo de batalha.
Foram várias picadas de anestesia pesada. Segundos depois eu já não sentia nada. E ria. Tentava abrir os buracos do nariz várias vezes e nada. Nenhum movimento.
O processo foi tranqüilo. Nenhuma dor. Mas com certeza a guerra foi sangrenta. Eu vi passar diante de meus olhos vários tipos de brocas, agulhas, linhas, seringas e o bisturi de sempre.
Eles cortam a gengiva até chegar ao osso e em seguida furam ele e colocam o tal implante. Colocam não, parafusam. Literalmente.
Depois pegam gengiva de algum lugar que tenha de sobra e tapam o buraco. Literalmente.
A trilha sonora da batalha? Conversas sobre como o doutor A iria para Bauru, sobre festas, sobre faculdade, sobre o quanto as personagens C e D (as ajudantes de A e B) eram ou não “mocinhas” e suas respectivas idades.
Nada fora do comum.
Depois do suave procedimento eu pude finalmente sentir a sensação de tocar meu lábio superior e não sentir nada. Não dava pra saber se a boca estava aberta ou fechada. Não é a sensação que eu gostaria de ter sempre.
E depois que o efeito da anestesia passou deu pra perceber que o fim da cirurgia não tinha sido o fim da guerra e sim o fim da batalha.
Assim é sempre.
