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Arquivos de Fevereiro 22nd, 2008

22/02/2008De zero a dez

AP

Como se faz um crítico de cinema? Cinéfilos se reúnem em… hã… Bom, eles se reun… Eles não, porque eu me considero um. Que seja. De qualquer forma cinéfilos inventam de se reunir em lugares onde cinéfilos se reúnem (talvez um cinema?) e inventam de discutir Kurosawa ou, dependendo do humor, Buñuel, Lars von Trier, Truffaut,  Rossellini. Se o conhecimento é menor a conversa para em Spielberg ou Coppola. Mas o debate segue sempre regado de comentários bastante criativos sobre gostos pessoais.

Em meio às várias falas inflamadas sobre sei lá o que dos filmes e tudo o mais, sempre surge algo do tipo “não foi bem nas críticas” ou “falaram mal dele na revista tal”. E aos poucos alguns cinéfilos acham que podem julgar os filmes que assistem de uma forma mais complexa do que com um simples “legal”. Esses alguns cada vez mais assistem filmes e mais filmes até acharem que o que irão dizer dali pra frente tem algum fundamento (isso me parece bastante familiar…).

Sei lá como se faz um crítico, mas cada vez mais entendo como eles analisam os filmes e em que baseiam seus comentários. Falar mal simplesmente porque não gostou não vale. Agora se você tem em mente toda a história cinematográfica e as suas influências talvez possa julgar um filme de uma maneira menos pessoal. Menos.

Até aí tudo bem, de qualquer forma o público em geral não vai ligar para o que a crítica diz, mas sim para o quanto o filme vai satisfazer sua vontade de entretenimento.

Mas uma coisa me incomoda. Criticar ator. Várias vezes ouvimos até de quem não é considerado “cinéfilo” algo do tipo: “Como ele atua bem, não é?”

Podemos gostar de algum ator, achar simpático ou até mesmo saber que gostamos do jeito que ele atua com base no que vimos e analisamos dos outros. Mas quando leio numa revista “Ele atuou com maestria” sempre fico com a pulga atrás da orelha. E várias vezes eu vejo essas frases elogiando um ator de mediano pra baixo. Quais os critérios para analisar o trabalho de um ator?

Hoje, como ator, eu me considero capaz de, pelo menos, olhar para um e perceber o quanto ele poderia ter sido melhor ou o quanto esse trabalho está diferenciado do anterior e etc. Agora é fácil perceber a diferença entre um bom ator e um ator ruim. O quanto um bom ator convence reproduzindo os fenômenos humanos e o quanto é visível um ator ruim fingindo que reproduz. Um olhar para o ator como um todo e vemos se a emoção que tenta passar é verdadeira. Eu estudei isso e tentei reproduzir essas emoções pessoalmente e, independente de ter ou não sido bem sucedido nesta tarefa, eu sei do que um ator é capaz e sei onde procurar sinais que provam que o trabalho poderia ser melhor.

Eu tentei deixar meu gosto de lado algumas vezes e, tomando como base todos os filmes que assisti e tudo que sei sobre a arte do cinema e sua história, consegui avaliar alguns filmes e, de fato, ainda o faço sempre que minha mente é invadida por alguma nova história da tela. Mas não é raro eu saber que o filme é ruim e ao mesmo tempo gostar dele. Eu julgo que alguns filmes, comparados com Cidadão Kane, Dreams, Janela Indiscreta, Dr. Fantástico, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, são apenas descartáveis, mas mesmo assim eu os assisto com gosto.

Sem contar que hoje é raro um filme que realmente seja uma obra de arte.

Mas quer saber? Se eu sair da sala escura com vontade de voltar já vale.

Descobrir o brilho em tudo. Ver que há brilho na paixão; que há brilho na amizade, que há brilho nas famílias, que há brilho nas segundas de manhã, que há brilho em esTar perdido, que há brilhO na dúvida; há brilho na fumaça, há brilho nas disCussões, há brilho no escuro. Esperar teM seu brilho. De repenTe descobrir que há brilho na guerra. Ver que de uma Grande decepção emana brilho; do cansaço emana brilhO. Surpreender-se com o brilho da dor. Há brilho na política, na economia, nos esPortes. O pão quentinho brilhA. O poRdo sol brilha. AndAr de ôniBus tem seu brilho. PerdEr tem seu brilho também. Olhar pela jaNela, pular uma poça d’água na calçada, quebrar o dente, beijar, bater, amasSar, andar na areia, sentir o vento, passar mal, conversar… Enfim, a descoberta de que, querendo, tudo tem seu brilho.


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