7/03/2008Na fila

Depois que assisti Anti-Herói Americano fiquei fascinado pela pessoa Harvey Pekar. Só pelo filme já entendemos que ele é um maníaco-depressivo que sabe da complexidade de uma vida medíocre.
Mas o filme não bastava, tinha que ler seus quadrinhos! Essa tarefa mostrou-se rapidamente bastante difícil quando percebi que não havia nada dele publicado no Brasil. E fui desistindo de procurar aos poucos.
A vontade de ler a história sobre o episódio da fila do supermercado já foi sendo ofuscada por outras vontades em forma de quadrinhos.
Mas, um dia desses num sebo, durante uma de minhas demoradas visitas, me surpreendi com uma publicação de nome Bob & Harv. Sim! Finalmente tinha encontrado! Era uma edição especial que a Conrad publicou com uma coletânea de histórias escritas pelo Pekar e desenhadas pelo ótimo Robert Crumb! Aquele dia eu saí do sebo vinte reais mais pobre, mas finalmente ia conhecer os quadrinhos do Harvey!
E foi assim que eu comecei a conhecer e, cada vez mais, me encantar por esse estilo de HQ. Robert Crumb é considerado um dos grandes nomes do quadrinho underground norte-americano. O cara é o responsável pelo Mr. Natural. E, como diz o próprio Harvey, “desenha melhor do que praticamente qualquer um no planeta”.
E foi no curto prefácio do livro, escrito pelo Crumb, que eu comecei a entender melhor sobre a pessoa Pekar. No primeiro parágrafo Crumb diz:
“Eu tenho muita roupa suja pra lavar aqui, mas vou tentar conter meus comentários e simplesmente dizer ao mundo como o Harvey Pekar é um grande cara. Na verdade, foi exatamente isto que o Harvey me pediu pra fazer, ele me ligou e disse “olha, só diz pro mundo que eu sou um grande cara, tá?” “claro que sim Harvey”.
Toda vida (me corrijam se eu estiver errado) tem lá o seu lado medíocre. E talvez realmente nós ignoramos o quanto é complexo isso. Quando Harvey diz: “Agora, escolher a fila certa no caixa é uma arte… Há muitos fatores a considerar – a velocidade do caixa, o número e tipo de pessoas na fila, a quantidade e os tipos de coisas que estão comprado – é uma verdadeira arte!” Ele realmente está certo! Isso e muito mais!
Agora você que está lendo isso e não curte quadrinhos ou é fanático por um bom X-Man, eu já aviso que ler Harvey Pekar vai contra todo esse esquema heróico e violento dos quadrinhos da Marvel ou DC. Ler Harvey é ler a vida como ela é. Nada de explosões, nada de roupas apertadas, decotes heróicos e super-poderes. Ninguém salva o mundo. E tampouco esperem grandes tiradas e frases de efeito. O que Harvey escreve é o simples e monótono dia-a-dia.
Mas não pense que é uma leitura chata. Longe disso. Você vai perceber que, em pouco tempo, estará entrando em seu mundo, achando graça de suas esquisitices, conhecendo seus amigos, compreendendo a complexidade do monótono.
