A gente tira de ordem, desorganiza, desordena, desarranja, dissolve, coloca a dama antes do cinco e todas essas coisas que não tem ligação aparente para que o jogo possa acontecer! Seja bem vindo!

CONSCIENTIZANDO


Estava eu na papelaria do meu pai fazendo 150 cópias coloridas de uma propaganda quando percebi que o processo iria levar mais tempo do que eu gostaria. Mas não tinha escolha e mesmo que aquilo tomasse todo o meu dia eu não poderia reclamar.

Desse modo, enquanto a copiadora fazia seus estranhos barulhos, eu decidi procurar alguma coisa para fazer. Entrei na internet, descobri que o ator Heath Ledger morreu, vi meu orkut e logo já não tinha mais o que ver ali. Voltei para frente da impressora e fiquei esperando. Definitivamente iria demorar. E definitivamente eu não tinha a menor intenção de ficar olhando as cópias serem ejetadas.

Desse modo sentei e peguei uma espiral de apostila das mais largas e comecei a brincar. Brincadeira que também não rendeu muita coisa. Parei e comecei a fuçar em tudo quando, de repente, em cima da prateleira do xerox eu vejo o que parece ser um livro. Animado eu estico o braço e alcanço o tal com a esperança de que agora o tempo poderia passar mais rápido. Doce ilusão. O tal livro era o manual de instruções da máquina de xerox PB.

Agora eu digo: se você realmente quer ler alguma coisa muito chata, leia o manual de instrução de uma máquina de xerox. Sinceramente, ler bulas é mais emocionante.

Mas imaginem vocês que eu não precisei de outra coisa pra passar o meu tempo! Li um pouco do manual, que ainda por cima estava em inglês, e fiquei pensando nisso: existe coisa mais chata do que ler manuais?

Foi quando eu lembrei que nem sempre é assim. Existem manuais que são muito mais legais de se ler!

Quando eu era menor eu tinha alguns manuais que eu adorava ler. Eu tinha um jogo para computador que chamava Roller Coaster. Os mais entendidos devem se lembrar dele. E o manual dele eu li inteiro e carregava sempre comigo. Quando ele rasgou, eu plastifiquei a capa.

Como eu me aventurava fazendo montanhas russas naquele jogo o manual se mostrava uma coisa bastante útil e também muito divertida!

Outro manual que eu cheguei a plastificar foi o manual de outro jogo: The Sims. Esse jogo qualquer pessoa conhece. E eu também tive minha fase “sim”. E o manual, nessa fase, foi a coisa encadernada que eu mais usei.

De fato esses manuais eram interessantes, assim como o eram os produtos relativos a cada um deles. E assim foi durante toda minha infância, os manuais mais lidos eram os de jogos de computador, de legos e de outras coisas divertidas como carrinhos de montar e até nautimodelismo.

Acabei por perceber, agora, que o mundo deveria ter um manual de instruções. Que assim como os que eu li dizem o modo certo de repor o papel na máquina ou de construir uma casa mal assombrada, deveria existir um manual para nos ensinar o modo certo de lidar com a natureza, o modo certo de usufruir os oceanos, o modo certo de utilizar o oxigênio e assim por diante.

Mas de nada adiantaria um manual desses. O como utilizar esse planeta nós já aprendemos. E temos aí milhares de anos de experiências erradas que hoje nos possibilitam ver o caminho menos pior. Resta segui-lo.

Outro manual seria muito útil hoje em dia: um manual do cérebro. Seria ótimo se todas as pessoas soubessem usá-lo!

Ou quem sabe um manual do comportamento. Um manual de como utilizar a boa educação.

Inúmeros. E esses não seriam tão chatos quanto o manual da máquina de xerox PB. De fato eu conheço várias pessoas que merecem ser presenteadas com um desses manuais. Em mesmo leria vários capítulos!

De qualquer forma, na ausência de tais ferramentas, nós apelamos para o bom senso.

arvore

Voltando pra casa um dia desses eu passei pelo começo da Paulista e vi uma estranha árvore de natal no formato de uma pirâmide de três lados. Fui chegando perto aos poucos e a imagem foi ficando clara. E percebi que os enfeites eram inúmeras latinhas amassadas. Dos outros dos lados o que enfeitava eram garrafas amassadas e madeira repicada. No topo da árvore, no lugar da estrela, havia o símbolo de reciclagem.

Passei por ela e me veio a idéia de fotografar para, quem sabe, escrever alguma coisa. Não tive coragem e passei reto. Já na calçada da Dr. Arnaldo eu, de repente, vi mais uma delas. Não tive dúvida: saquei o celular e tirei duas fotos.

Vim pensando nesse negócio de reciclagem. É realmente uma solução muito boa para todo o lixo que produzimos.

Mas, de qualquer forma, eu quero propor uma coisa à vocês: ao andar na rua contem quantas pontas de cigarro vocês acham no chão em vinte passos.

Isso me incomoda muito. Muito mesmo. E às vezes eu até comento com algumas pessoas. Várias delas olham pra minha cara e dizem: “Só pontas de cigarro? Você nunca reparou que há muito mais lixo no chão além de cigarro?”

Essa é realmente uma pergunta cretina. Quem não nota isso? É lógico que eu vejo o resto do lixo no chão!

Mas aí eu fico pensando em substituir as pontas de cigarro do chão por pétalas de rosa. Imaginem! Ia ser uma imagem linda: todas as ruas enfeitadas com pétalas de rosa!

Eu simplesmente não consigo entender porque as pessoas não entendem que lugar de lixo é no lixo! E depois reclamam que a cidade está suja, feia e o escambau.

E aquelas pessoas que jogam o papel de bala ou o guardanapo pela janela do carro ou do ônibus? Nessas horas dá vontade de, tranqüilamente, ir até a pessoa, me apresentar, pegá-la pelo cabelo e fazê-la recolher o lixo do chão com a boca.

Como eu acho que nem todas iriam aceitar calmamente essa minha atitude eu me contento em apenas chamar a atenção da pessoa e me disponibilizar para carregar o lixo para ela. Se não dá tempo de fazer isso ou se a pessoa está em outro carro eu me contento em apenas conter minha raiva.

Aquelas árvores me fizeram realmente pensar em várias coisas. Que cada um faça a sua parte.

31/10/2007Algumas coisas

Dia desses um amigo virou pra mim perguntando onde o mundo ia parar. Sempre que alguém me pergunta isso eu lembro que tudo pode ser um sonho, quem sabe quem existe? Uma tábua do chão vira uma ponte entre o meu apartamento e o apartamento do prédio ao lado. E outro dia pegou fogo num andar abaixo. Sei lá onde o mundo vai parar! Antes fosse eu o motorista!

Do jeito que o sofá de casa está sujo eu digo que vai ser difícil a cegonha voar por aí muito tempo. E sempre que eu penso no escuro que se estende noite afora eu penso no tamanho das formigas e no tamanho dos elefantes.

Eu queria saber jogar o jogo, queria conhecer tudo, saber o que são os buracos negros. Também queria ter alguma coisa que fosse útil e que não fosse sumir.

Ou eu não quero ter nada.

Quer saber? Eu queria mesmo parar de querer. Onde o mundo vai parar eu não sei, mas sei que eu posso ajudar a mostrar o caminho. E não preciso ser grande pra isso. E se todos ajudassem dava pra fazer tudo mais rápido.

Só sei de uma coisa: todo mundo merece a lua crescente.

Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, (do meu, do nosso dinheiro) que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:

“Não roubarás”,

“Devolva o lápis do coleguinha”,

“Esse apontador não é seu, minha filha”.

Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até hábeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.

Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem!

Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba” e vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez.

Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.

Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal.

Eu repito, ouviram? Imortal!

Sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

(Elisa Lucinda)

Agora que todo mundo descobriu quem matou a Taís e que a Globo tá com o sorriso de orelha a orelha vamos aproveitar para discutir o quanto as crianças japonesas estão se divertindo com a novidade infantil nacional. Ou talvez sobre o panda que gosta de espiar os arredores da jaula em Madrid. Não! Melhor: falemos sobre o raio que explodiu os tanques de álcool no interior, ou quem sabe sobre a semana de moda de Milão. Se bem que a Bovespa teve o melhor mês desde janeiro… E isso é importante.

Lembrei de uma outra coisa agora: a seleção brasileira de basquete feminino venceu o México por 119 a 44 no Pré-Olímpico! Isso vale a pena comentar… Mas quer saber: eu já não sei sobre o que falar, porque talvez precisamos de fatos grandes para estarmos felizes.

Ah! Pronto: Lembrei de uma coisa que pode dar assunto. Aconteceu um dia desses. Eu e meu amigo fomos comprar mantimentos no supermercado da esquina. Logo que entramos foi cada um pro seu lado atrás do que era bom.

Enquanto procurava não sei o quê, passou uma garota do meu lado. Trocamos olhares simpáticos, e continuamos nossa busca por aquilo que mais tarde daria tiros no seqüestrador do meu estômago.

Pega pão, procura detergente, compara preço de requeijão e de repente ela de novo passando do meu lado. Depois da troca de olhares que começava a ser comum, mesmo eu tentando evitar, volto a procurar pelo Veja, sabão em pó, água, peito de frango, queijo, batata palha, o olhar da menina, o pano, a bolacha, o leite, a esponja, o sabonete e finalmente o caixa.

Entrei na fila, meu amigo junto, mas foi aí que ele percebeu que tinha esquecido o Guaraná! E sem guaraná não dá, né? Então ele saiu da fila e foi procurar o tal, já a minha pessoa ficou pra passar o que era meu. Logo atrás de mim adivinha quem aparece? A própria! A desconhecida que gostou de trocar olhares. De qualquer forma, passei a minha parte da compra, paguei e fui me encostar na saída para esperar meu amigo.

Como não tinha mais o que fazer além de esperar ele, que já estava demorando, comecei a observar a garota que começou a passar sua compra.

Também não consegui deixar passar em branco a presença de um mendigo no portão do supermercado. Simplesmente parado e Olhando para dentro.

Notei então que a pessoa feminina dessa história havia terminado de passar as compras dela e terminava de encher a segunda sacola. E para não sair do normal ela saiu do mercado, passou do meu lado e me olhou de novo. Mas como que para me surpreender ela começou a andar na direção do mendigo. E acredite, ela parou na frente dele e deu uma de suas duas sacolas. Sim, isso realmente aconteceu, eu vi com os meus próprios olhos que a terra há de comer. Depois ele agradeceu e ela foi embora.

Pronto: qualquer que fosse a preocupação que estivesse passando pela minha cabeça naquele momento foi pulverizada, quase acabei esquecendo o motivo pelo qual eu estava ali, ou seja, esperando meu amigo. Naquele momento eu queria parar ela no meio da rua e dar um beijo nela dizendo “obrigado”. Que cena cinematográfica, vocês não acham? E se não fosse minha timidez e aquela minha parte que pensa o que a garota ia achar, eu realmente faria isso! Mas me contentei em acompanhar a querida garota com o olhar até perder o alcance do seu destino.

Naquele momento aquilo realmente me levantou! Eu me sentia bem, mas também culpado por não fazer nada pelo morador de rua.

Depois que ela já não estava mais no meu complexo campo de visão, eu olhei para o mendigo com a enorme vontade de ir falar com ele. Talvez perguntar seu nome, sobre ele, se a garota havia lhe prometido algo e também se ele conhecia-a. Sei lá! Só falar com ele!

Mas não tive coragem… Simplesmente esperei meu amigo. E quando ele veio, voltamos pro apartamento.

Mesmo eu assumindo meu papel de espectador, aquele gesto foi fazendo de mim uma grande salada de frutas. Isso significava que, eu pensava em tudo, mas principalmente no quanto aquilo me fez bem. E assim a sacada: foi ali que eu tive certeza de que fazer a “famosa” boa ação pode até parecer inútil, só que a gente sempre esquece de imaginar o quanto aquilo faz bem, para os dois lados: os que recebem e também para as pessoas que estão vendo, neste caso eu!

[esse texto foi escrito por duas mãos: a minha e a da minha eterna amiga Mariana, do Paraná. Um dia desses, depois de escrever a primeira versão desse texto, eu tive a idéia de que outra pessoa desse uma lida e modificasse o texto do modo que bem entendesse. Foi o que fiz. Mandei para a Mariana e falei que fizesse com ele o que quisesse. E ela fez. Depois eu ainda dei uma lida, mudei algumas coisas e passei pra ela de novo que deu as modificações definitivas. Portanto você acabou de ler um texto escrito em dupla! Eu achei um bom fruto e pretendo colocar a idéia pra frente com outros textos. Agora resta saber o que você achou disso!]

 

Podemos dizer, com absoluta certeza, que a negociação na base da troca enxergou seu fim no famoso episódio em que um homem teve que trocar galinhas por uma baleia. Infelizmente quem teve a idéia de substituir a baleia por um pedaço de papel que tivesse um mesmo valor e que pudesse ser trocado pela quantidade equivalente de galinhas não foi o dono das galinhas (que, de agora em diante, por motivos didáticos, chamaremos de Seu João). Tampouco o dono da baleia (Seu Zé).

Ocorreu que, no dia seguinte ao da famosa troca, o Seu Antônio (nome igualmente fictício dado pelos mesmos motivos anteriores) que era vizinho do Seu João, deu por falta na sua fazenda de todas as galinhas! Desesperado e sem saber como faria seu omelete matinal ele teve uma idéia. No exato momento em que teve essa idéia, percebeu o quanto ela era ridícula e sem fundamentos. Tentou então ter outras idéias para que assim pudesse ter um mínimo de opções de escolha.

Não conseguiu. Sua mente estava tão perturbada pela fome que resolveu arriscar e colocar em prática sua idéia ridícula. Desse modo, pegou o primeiro pedaço de papel que viu pela frente, cortou de uma forma retangular, pintou qualquer coisa nele e foi até a fazenda de Seu João.

Já deu pra perceber que Seu João foi tentado pelo Seu Antônio a trocar suas galinhas pelo tal pedaço de papel. E já deu pra perceber que isso não deu certo. Não pelo fato de Seu João desconfiar do truque do vizinho, e sim pelo fato de que agora ele não tinha mais galinhas em seu quintal mas sim uma baleia.

Desse modo Seu Antônio passou de porta em porta tentando aplicar seu ridículo golpe magistral. Mas nunca dava certo porque em todas as casas da vizinhança, por mais incrível que parecesse na época, as galinhas haviam sido roubadas! Até que ele desistiu, voltou pra casa e resolveu comer alface.

Um dia depois, tempo o bastante para que Seu Antônio se acostumasse com a idéia de uma dieta verde, apareceu em sua casa Seu Zé oferecendo galinhas em troca de algo que tivesse o mesmo valor.

Seu Antônio não queria mais galinha. Os tempos eram outros e Dona Ofélia (esposa de seu Antônio) achava que era melhor plantar alface do que ter galinhas. Mas algo se passou pela cabeça de Seu Antônio naquele momento e que até hoje permanece sendo o segundo maior mistério da história da humanidade (só perdendo para o maior deles: o que se passou na mente do cara que inventou o banho portátil) e que o fez oferecer o tal pedaço de papel rabiscado em troca de 17 galinhas.

Seu Zé ficou meio cabreiro nesse momento e argumentou que o tal papel não chegava a pesar nem 28 penas de galinha, quem dirá 17 galinhas com todas as penas!

Seu Antônio então disse que havia trocado seus sete galos por aquele pedaço de papel e que todos sabiam muito bem quanto valiam sete galos!

Seu Zé então se convenceu e topou o negócio.

Como foi provado agora, vemos que o inventor desse pedaço de papel colorido que guardamos com tanto cuidado, que usamos para a troca, que nos faz trabalhar, que dita nossa posição social, que criou a hierarquia, que mata milhões, que ilude milhões, que diz se podemos ir e vir, que massacra boas idéias, que promove idéias estúpidas, que deixa órfão, que deixa viúvo, que deixa dependente, que nos despe, que deixa a paixão em coma, que quase mata o amor e que, ao mesmo tempo nos faz emanar vida que transborda frutos que salvam, quem recortou um desses pela primeira vez foi o vizinho do cara que queria uma baleia.

[Complemento didático para os que não compreenderam a pseudo-fábula monetária acima:

O vizinho do cara que queria uma baleia era o Seu Antônio. Ele criou o que hoje é o dinheiro para tentar conseguir galinhas com os vizinhos, pois todas as suas tinham sido roubadas. Elas foram roubadas pelo Seu João (vizinho de Seu Antônio), que roubou todas as galinhas da vizinhança para poder trocar por uma baleia. O dono da baleia era o Seu Zé, que queria muitas galinhas e então resolveu trocar sua baleia. Depois da troca Seu Zé passou então a trocar galinhas por outras coisas de seu interesse, entre elas o tal papel que o Seu Antônio mentiu ser valioso.

O educador pode recorrer aos recursos de desenhos para colorir e questionarios interativos.]

=O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: O MAL USO DO TAL PAPEL COLORIDO CAUSA DANOS FÍSICOS E PSICOLÓGICOS FATAIS=

17/08/2007Submergindo

O lambari, preocupado com o futuro do riacho, resolveu arrumar tudo. Queria dar uma varrida na terra do fundo, uma escovada nas algas, uma lustrada nas pedras.

Mas foi quando começou que se deu conta do quanto ia ser complicado. Percebeu que não tinha um tamanho que favorecia. E então resolveu chamar os outros peixes.

- É o seguinte – disse o lambari – todos vivemos aqui desde sempre, e como a correnteza é fraca, poucos se mudaram. Por isso eu acho justo que todos ajudem na arrumação!

No meio da reunião, como que por acaso, bem no meio da roda de discussão que foi formada pelos espécimes subaquáticos, surgiu calmamente, vindo de cima, um ser completamente estranho em um meio de transporte até então desconhecido.

Tratava-se de um ser roliço, fino, curto, marrom, sem qualquer orifício ocular ou degustativo e que se comunicava através de uma estranha linguagem corporal distorcida.

Seu meio de transporte era mais único e estranho que o próprio ser. Era algo parecido com uma linha aparentemente infinita que vinha da superfície e além. A ponta era brilhante e curva. E atravessava curiosamente o ser.

Quem estava na reunião, depois do susto, ficou absolutamente intrigado e sem saber o que fazer.

O lambari, já pensando no desequilíbrio que a situação traria, tomou a iniciativa:

- Seja bem vindo à redondeza! Você veio de cima?

E o tal ser continuava a se comunicar de uma forma contorcida e sem palavras.

- Ele não fala a nossa língua! – gritou o baiacu.

Imediatamente o ser começou a baixar o ritmo de comunicação. Baixou até ficar imóvel.

O lambari, depois de um tempo, se aproximou dele e nenhuma reação se esboçou. Chegando mais perto ele foi contaminado por algo na água que o fez ver que aquele ser, na verdade, era apetitoso. Segundos depois todos os outros perceberam também e, como que por instinto, atacaram o que era um ser e se mostrou comida. E devoraram o que puderam.

De repente, quando o alimento estava praticamente sumido, o tal meio de transporte subiu de volta à superfície num tranco mortal. Todos saíram de perto do local o mais rápido possível e tremendamente assustados. Por sorte ninguém estava perto o suficiente para ser puxado.

- Na verdade então… – disse o lambari – será que… só pode ser!… Sim! Essa coisa que veio transportando o tal ser que na verdade era comida, é o verdadeiro ser vivo! Usou de um alimento para nos enganar e nos devorar!

Todos acharam que essa versão dos fatos era realmente a que mais fazia sentido e então se deram conta de que foram enganados e quase extintos!

Cada peixe ali presente foi para seu canto pensando sobre aquele fato bizarro, com medo e um certo receio. Em silêncio. Até o lambari.

No dia seguinte o lambari, preocupado com o futuro do riacho, resolveu arrumar tudo.

12/08/2007Mágica

Mágica é ver alguém sorrindo. Alguém cantando. Alguém dançando. Alguém brincando. Correndo, pulando, dormindo, abraçando, beijando, piscando, gritando, se assustando. Mágica é dividir a última bolacha do pacote. É dar um pedaço do picolé. É deixar sentar perto da janela. É guardar pra quem não veio. É deixar ler primeiro. É levantar pra dar lugar. É ajudar a subir. É deixar o outro escolher o filme. É dar o controle remoto. É perguntar o que quer ouvir.

Mágica é oferecer uma mão e ajudar de corpo inteiro. É não esperar ser correspondido e receber uma carta. É começar no “oi!” e não acabar. É dizer “não quero” e se arrepender. É sair por um mês e voltar em uma semana. É tentar subir e tropeçar.

Mágica é o pão quentinho, é quando o dinheiro só paga um Miojo, é quando não dá pra comprar o biscoito, é quando só se tem água pra beber, é quando o cardápio da semana é feijão. Mágica é não ter pra dar e oferecer. É dormir numa cama apertada. É passar frio um dia. É cansar de pão de forma. É jantar o almoço.

Mágica é saber que nós temos que ser os mágicos.

3/07/2007O Sol

Provavelmente vocês já devem ter assistido aquela propagando na TV em que uma pessoa, dentro de um apartamento, vê um beija-flor voando perto da sacada e fica maravilhado; chama todos os parentes pra ver e todos admiram aquilo como se fossem crianças de rua assistindo as pessoas comendo através da vitrine de um McDonald’s.

Uma segunda propaganda desse mesmo produto mostra o interior de um escritório de um prédio. A vista da janela praticamente dá para o horizonte. De repente uma pessoa percebe o pôr do Sol e chama a atenção de todos, que se maravilham com a cena.

As propagandas, se não me engano, são de algum carro aí. E ambas acabam com uma frase mais ou menos assim: “Você precisa de mais contato com a natureza.” E continuava falando do carro.

Minha primeira reação após essas propagandas foi algo do tipo: “é verdade, né? Hoje em dia falta mesmo esse contato com a natureza…”. e tudo ficou por isso mesmo..

Foi quando, cetro dia, na minha república, um amigo meu, do nada, grita: “Ei! Venham ver isso!”

“Isso o quê?” Perguntei. “O pôr do Sol!” E aí pronto: fomos todos até a janela.

“Não é um dos mais bonitos que vocês já viram?” Continuou meu amigo, logo seguido por comentários do tipo: “Verdade!” “Bonito mesmo!” “Show…”

Era realmente bonito. Eu elogiei também. Mas não era melhor do que o pôr do sol na minha cidade;

E foi aí que eu lembrei da propaganda. “Você precisa de mais contato com a natureza.” E isso ficou na minha cabeça.

De lá até o momento em que eu resolvi escrever isso aqui, várias reflexões sobre o assunto me assombraram.

Coisas como a situação do rio Tietê até os momentos mais natureza da minha vida. Tendo como pano de fundo para tudo isso a tal frase da propaganda.

OK. Certo. Para organizar as coisas eu decidi deixar de lado as destruições ambientais que nós desencadeamos e pensar somente na raiz da questão: a natureza é (tirando o imprescindível valor biológico) realmente necessária para nós?

Sim. Essa foi a resposta. E foi aí que eu comecei a lembrar e pensar:

Nada como admirar o pôr do sol da minha cidade. Ou talvez o pôr do sol na praia. Ou quem sabe as trilhas de uma hora na serra litorânea onde uma brecha entre as árvores mostra a imensidão azul do mar.

Ou talvez a imensa os imensos campos de Mato Grosso do Sul, onde a vista se perde rodeada de tanta beleza; seguida depois de lindas grutas, lagos subterrâneos, crateras, buracos, tucanos, jacarés, araras, águas transparentes, peixes…

E ainda sentir no corpo uma queda d’água de três metros no meio de uma floresta depois de horas subindo um rio entre as pedras.

Achar uma praia com dunas depois de muito sol na cabeça.

Pedalar quilômetros por trilhas desconhecidas, achar lugares misteriosos no caminho. Ter que carregar a bike para passar por um rio. E depois de horas pedalando em baixo do sol de uma hora da tarde numa ilha beirando o mar achar uma ducha natural de graça.

Nadar num rio cercado por hectares de mata. Mergulhar nesse rio marrom para tirar galhos de uma galhada presa. Enfrentar a correnteza. Ser acompanhado por pássaros enquanto se desce o rio…

Enfim: todos precisavam disso.

Precisamos de mais pôr do Sol em nossas vidas.

Imaginem que estava eu em um dia como outro qualquer, ou quase. Acordei, tomei café, peguei minhas coisas, fui pra aula. Último dia de aula. Saí da aula e bateu aquela vontade de fazer alguma coisa de diferente, afinal eu teria a tarde inteira sem fazer nada.

Resolvi ir ao cinema! Depois do cinema eu encontrei uma amiga minha e a gente saiu pra beber um pouco. Já eram quase oito horas e estávamos saindo do bar quando meu celular toca. Era outra amiga. Eu atendo e ela começa a falar: “Luis! Eu ganhei dois convites para uma apresentação no Citibank Hall e preciso de alguém pra ir comigo! Vamos?”

“Como assim? Que apresentação?” perguntei.

“Então… Eu não sei direito… Eu nunca ouvi falar… Mas eu ganhei os convites! Vamo lá? Seguinte, eu tenho que pegar os convites até oito horas, então eu tô indo pra lá agora e a apresentação começa às nove e meia, a gente combina nove horas lá?”

“Pode ser…” respondi. “Pode ser, sim.”

“Certo!” ela disse. “Nove horas a gente se vê!”

E desligou.

Eram oito e dez. Eu tinha cinqüenta minutos pra ir pra casa, tomar um banho, me arrumar, descobrir quantos e quais ônibus pegar até o Citibank e, afinal, ir até lá!

Indo pra casa quase correndo começou a fazer que ia chover.

Me arrumei e saí de casa as oito e meia. Fiz minhas deduções e resolvi onde pegar o ônibus. Indo até o ponto começou a garoar. Pronto, já estava me vendo todo ensopado e não chegando à tempo. Mas continuei mesmo assim.

Dei sorte. Cheguei no ponto e o ônibus chegou junto. Vi na placa o nome da Av. Ibirapuera. Era a avenida onde fica o Citibank. Ou quase. Um quarteirão longe dela. Perguntei pro motorista até que altura dela ele ia.

“Anda ela toda.”

“Ótimo! É esse.” pensei.

Faltavam vinte minutos pras nove e eu ainda estava pensando que o trânsito não ia ajudar e eu não ia chegar. Mas até que deu! Nove e dez eu cheguei no ponto da Ibirapuera que precisava. Desci e não estava chovendo! Cheguei no Citibank Hall as nove e quinze. Minha amiga já estava lá com os ingressos na mão. Entramos e começamos a pensar: onde estamos?

Eu vi o nome da apresentação na parede: Slava’s Snowshow.

“O que é isso? Teatro? Música?” perguntei.

“Sei lá!” respondeu minha amiga.

Entramos e sentamos curiosos pelo que viria.

O palco estava bonito. Parecia simples, mas era bonito. A apresentação começou e o palco foi tomado por uma nuvem de gelo seco e uma luz toda especial. Até ali tudo ótimo.

De repente entra no palco um palhaço com uma corda na mão. Não um desses palhaços de circo. Ele vestia uma roupa única amarela, tinha o cabelo grande todo para o lado e maquiagem de palhaço só um pouco diferente. O sapato era como uma pantufa vermelha grande.

Ele entrou todo triste e foi devagar até o meio do palco. Parou. Virou para o público e mostrou a corda. Ela tinha um nó de forca. Ele colocou a corda no pescoço e começou a puxar o outro lado até achar a outra ponta.

“Meu Deus! O que é isso?” pensei.

E ele puxava a corda quando de repente havia mais corda. Ele puxava e continuava vindo corda, e mais corda e nunca que chegava a outra ponta! Comecei a achar graça. E ele continuava puxando e parava, olhava para o público sem entender nada e continuava puxando, rápido, devagar, e a outra ponta não chegava nunca!

À essa altura eu já tinha gostado do negócio.

De repente a corda esticou e prendeu em alguma coisa dentro da coxia. O palhaço estranhou, parou, olhou para o público, para a outra ponta, sem saber o que havia prendido nela. Começou a puxar devagarinho até que aparece um outro palhaço com a outra ponta da corda enrolada no pescoço! hehehe!

Adorei! Aí eles desistem disso e saem de cena.

Daí por diante segue no palco um espetáculo só com palhaços (clowns, como se diz no meio do teatro, que é algo um tanto mais profundo que qualquer palhaço). Era esse palhaço amarelo o único diferente. Os outros eram todos verdes e tinham chapéus longos e pés longos. Ótimos.

Com efeitos especiais perfeitos, músicas ótimas (todas com um clima meio sonho) e luzes que davam o tom.

Os atores eram simplesmente fantásticos. Com movimentos lentos e às vezes somente parados no palco faziam todos darem risada! Simples trocas de olhares entre eles eram suficientes para ganhar o público por vários minutos a fio.

Eles faziam passar pelo palco bolas de neve, bolas gigantes transparentes com alguém dentro, casinhas pequenas com chaminés ligadas…

Cobriam o público com teia de aranha, jogavam bolas imensas (mesmo, não caberiam em uma sala qualquer) no meio do público, passavam no meio, pegavam pessoas e levavam para o palco. Faziam chover no palco, faziam nevar no palco e no público, faziam tempestades de neve com direito a muito barulho, muito vento e muita “neve”.

Havia momentos em que uma só luz pequena iluminava o palco e só um palhaço (o de amarelo) ficava em cena representando alguma coisa (a melhor dele está no vídeo desse post, logo abaixo, onde ele contracena com um ‘cabide’).

Acabou o espetáculo e eu não acreditava. Como assim isso foi tão bom? O que foi isso?

Saí de lá pensando em tudo, nem tinha muito que falar…

Cheguei em casa no outro dia e fui logo pesquisar o tal do espetáculo.

Quase nem acreditei quando vi que esse tal de Slava é só considerado o melhor clown do mundo!!! O cara é russo e manda muito, muito mesmo!!! Eu li até que é ele quem as apresentações de palhaço do Cirque du Soleil! Tava explicado! Não podia ser outra coisa! O tal palhaço de amarelo era ele! Não acreditei quando me dei conta que assisti à um espetáculo dele DE GRAÇA!!!

O espetáculo era algo que te tirava desse mundo. Realmente você viaja pelas entranhas da imaginação e das sensações de um modo que só ele conseguiu até agora. Uma poesia, uma sensibilidade, uma perfeição, uma magnitude. E isso sem nem precisar falar! Era o tempo inteiro mudo!

Mas quem disse que ele não falava…

Um trabalho corporal perfeito. As duas horas passam como dois minutos. E eu saí querendo mais! Mais! Mais!

Aquilo valeu o dia! Valeu tudo!

Super empolgado eu contei tudo pra minha família. Minha tia, ouvindo tanto e vendo o brilho que o espetáculo do tal do Slava colocou no meu rosto, falou:

“A arte encanta.”

Aproveite para conhecer mais clicando nos links do texto!

PS.: um comentário sobre: ‘SLAVA’S SNOWSHOW is to clowning what Cirque du Soleil is to the circus…’ Variety

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