A gente tira de ordem, desorganiza, desordena, desarranja, dissolve, coloca a dama antes do cinco e todas essas coisas que não tem ligação aparente para que o jogo possa acontecer! Seja bem vindo!

Historietas


Duff!Era sábado. A idéia de ir ao cinema foi dele. Ele ligou para ela e disse para chamar as amigas. Ele ligava pros amigos. Ia ser legal, fazia um certo tempo que eles não saiam juntos.

Tudo tranqüilo e resolvido. Quatro carros. Toda a galera. Filme? “Ah, a gente vê lá!”

Filme bom. Melhor ainda é rever o pessoal. A conversa merecia uma prorrogação.

- Alguém aí tá com fome?

A idéia de ir ao bar foi dela.

Juntaram várias mesas, sentaram fazendo muito barulho, discutiram bastante até pedirem algo. Ou seja: testaram a paciência do garçom.

- Escuta. – disse ele – Anota aí: uma porção de polenta frita… Não, espera. Uma não. Duas! Isso! Duas porções de polenta frita com queijo ralado, hã… cinco espetinhos de carne e cinco de queijo. Duas porções de batatinha frita com cheddar e seis Brahma.

- OK, senhor. Algo mais?

- Não se esqueça dos copos, estamos em quinze!

- OK, senhor. Algo mais?

Ele olhou para o garçom com aquela cara de quem está perguntando: “é só isso que você sabe falar?”. O garçom, por sua vez, olhava para ele com aquela cara de quem diz: “aqui só me pagam pra falar isso.”

Embaraçosos segundos depois ele desistiu e voltou a conversar. Já o garçom foi fazer o que pagavam para ele fazer.

Algum tempo e várias cervejas mais tarde o celular de um dos amigos dele tocou.

- Alô? Oi! Como você tá, linda? Hã… Uau! Legal!… Eu? Então, to no Caneco Largo… É! Quer vir pra cá? Ah… Mas não…Não, não. Sem nenhum problema! Venham todas! OK! Tá! Estamos esperando! Beijo!

Mais gente. Amiga de amigo. Isso normalmente soa bem! Ele não esperava, mas gostou da idéia. Olhou para ela, que retribuiu com um olhar de indiferença.

Mais mesas. Mais cadeiras. Mais motivos para o garçom se perguntar o que diabos estava fazendo naquele emprego.

Minutos depois:

- Oi gente!

Vários “oi” foram ditos, vários beijos distribuídos e vários focos de esperança surgiram nos rostos masculinos solteiros e em alguns rostos masculinos comprometidos.

A amiga do amigo e suas amigas haviam chegado.

Ele amava ela de paixão e a recíproca era verdadeira. Sendo assim a última coisa que passava pela sua cabeça era ter um caso com a amiga do amigo.

Porém a tal amiga sentou ao seu lado. Nunca tinham se visto antes e a conversa fluiu naturalmente até que o garçom interrompeu:

- Tudo certo, senhor? Querem mais alguma coisa?

Aquela história de ser chamado de senhor não era legal.

Ele virou para as desconhecidas e perguntou:

- Vocês vão beber, não é?

Elas confirmaram e ele virou para seus amigos:

- A gente pede mais alguma coisa?

Um monte de gente falando, nada sendo resolvido e de repente o assunto faz a curva.

Tempos depois e com a perna cansada o garçom desiste de esperar e vai embora.

- Ei gente! – diz ele – O garçom até já foi! O que vamos pedir além das cervejas?

E algumas coisas foram pedidas. Minutos depois essas algumas coisas chegaram. As recém chegadas beberam e ficaram felizes.

Mais tempo e cerveja depois os assuntos eram variados e perambulavam entre uma amiga dele cantando em pé para quem quisesse ouvir e várias indiretas bem diretas da parte daqueles que não queriam que a noite terminasse ali naquele bar.

Ele olhava para ela e ela para ele. Sintonia perfeita. Amor verdadeiro. Silêncio.

- Gente! – pronunciou a amiga do amigo no ouvido dele – Só eu fumo aqui? Ninguém mais fuma? Só eu que vou fumar?

Ele, compreensivo:

- Pessoal! Alguém aqui fuma para fazer companhia pra ela?

Ninguém ouviu.

- Pois é – disse ela – eu fumo sozinha então.

E ele voltou para sua apaixonante troca de olhares.

- Você tá dirigindo, né? – perguntou a amiga do amigo para ele.

- Eu?

- É!

- Sim, eu vim dirigindo um dos carros.

Do outro lado dele ela prestava atenção no que acontecia.

- Seguinte – continuou a amiga do amigo – se você atropelasse um cachorro, o que você faria? Continuaria seu caminho ou parava para ajuda-lo?

- Humm – meditou ele sem interesse – Eu deixaria ele ali e continuaria.

- É. É o que eu faria. Mas sabe que semana passada eu tive um clique e que agora eu sempre vou ajudar os animais que eu atropelar.

Ele virou para ela, que estava adorando a idéia de vê-lo naquele papo de fim de noite imensamente absurdo. Ele piscou para ela, beijou-a e fez sinal para que prestasse atenção.

- Ah, é? Você cuida do animal então?

- Sim!

- Já cuidou de algum?

- Não.

- Mas vai?

- Sim!

- E você não pensou nos gastos que ele pode te dar? Comida, banho, veterinário…

- Hummm – refletiu a amiga do amigo – Não tinha pensado nisso!

- Pois é! – disse ele virando-se para ela e dando o assunto por completo.

- Mas sabe – continuou a amiga do amigo – acho que eu cuido do mesmo jeito!

Ele voltou, de novo, seu olhar para a amiga do amigo.

- Sério? Legal!

- É, eu cuido e depois eu devolvo pra rua.

Ele estranhou:

- Melhor então deixar ele na rua desde o começo, não é?

- Ah, não! Se eu pegar e cuidar e depois devolver alguém pode pega-lo depois e lhe dar uma casa!

- Hummm… Certo.

Ele definitivamente deu o assunto como encerrado e virou-se para ela, que estava já um pouco impaciente. Ele a abraçou, beijou e perguntou se queria alguma coisa.

Mais tempo e cerveja depois e alguns já tinham ido embora.

- Perdão, senhor. – falou o garçom.

- Sim? – indagou ele.

- Temos hora para fechar e…

- Hora para fechar? – gritou um de seus amigos do fim da mesa.

- Sim! – afirmou o garçom.

- Então – continuou o amigo – traga mais duas cervejas!

- Impossível senhor. – disse o garçom.

- Como assim impossível? – gritou o amigo num tom bêbado e bravo.

- Estamos fechando.

Prevendo a confusão ele pagou o garçom e convenceu todos a levantar e a ir embora.

O bar se fechou e, ainda na calçada o amigo se debatia absolutamente bêbado falando:

- Eu quero mais duas cervejas!

Outro amigo, para ver se acalmava o que restava de sóbrio no que gritava, deu um soco em sua barriga.

O bêbado adorou a idéia e devolveu o soco do modo que lhe era possível.

E foi assim que o grande tumulto começou, para a grande felicidade do bêbado e de todos que estavam pulando e batendo. Da rua vieram mais alguns e a festa tinha começado. O garçom, que tinha saído do bar para voltar para sua casa foi o que mais adorou a idéia da briga e começou logo a pular e a bater.

Três pessoas assistiam isso de longe e discutiam o que fazer.

- Sei não se vale a pena esperar isso acabar. – disse a amiga do amigo, um pouco tonta.

- É. – concordou ela, olhando para ele do modo mais apaixonante que ele já tinha visto.

- Então vamos. – falou ele – eu levo vocês para suas casas!

E assim foram até o carro. Ele abraçado nela e a amiga do amigo do lado deles tropeçando de vez em quando.

E de fundo um bando de gente se divertindo.

Era sempre assim, ele sempre voltava do trabalho e sentava na frente do computador. A mulher sempre reclamava:

- Geraldo Gutter! Saia desse computador! Agora!

E ele sempre respondia:

- Mas mô! A gente tem que usar o máximo que pode! Eu não vou ficar pagando por mais 32 meses esse negócio pra ver ele parado aqui!

- Foi a idéia mais idiota que você teve!

Era todo dia assim, menos de final de semana. Eles tinham comprado o computador numa superpromoção das Casas Bahia. 36 vezes sem juros! Uma pechincha!

Realmente a idéia mais idiota que ele teve.

Ele trabalhava de motorista de caminhão pra um supermercado famoso do bairro dele. Ela era diarista. Os dois saíam juntos na parte da manhã e só se viam á noite. Moravam numa casinha super simples: quatro cômodos. Mas era deles. Ele gostava de chegar e navegar na internet. Ficou um mês com discada, até que chegou a conta. Assinou o Speedy.

Ela entendia muito pouco de computador. Até tinha interesse, mas queria provar pro marido que ela sempre esteve certa e que a idéia de comprar aquilo era uma burrice sem tamanho. Certo dia ela ouviu uma música tocando. Foi ver de onde era e percebeu que era do computador. Saiu da cozinha e foi até ele:

- Bem, como você conseguiu essa música?

- Você não vai acreditar! Eu descobri como baixar músicas!

- Baixar?

- É, quando você pega elas da internet pra você! Um achado!

- E dá pra achar qualquer música?

- Sim!

Depois de observar muito bem observado seu marido mexendo, ela voltou para a cozinha tentando esconder seu interesse. No dia seguinte quem saiu pra trabalhar foi só ele. Ela não tinha sido chamada pra nada.

Acordou umas dez e meia. Pra passar o tempo começou lavando toda a louça, secando e guardando. Aproveitou que estava guardando e deu uma geral na limpeza dos armários da cozinha. Pegou o embalo dos armários e partiu pras prateleiras, gavetas, mesa, pia e assim por diante até deixar a cozinha num brilho que explicava porque o dia de faxina dela não era dos mais baratos.

Bom, assim foi exatamente como vocês podem imaginar: depois da cozinha foi pra casa toda (leia-se quarto, banheiro e sala). Terminando a casa toda, o relógio mostrou meio dia e quinze; mais um motivo do quanto ela cobra por faxina. Resolveu fazer o almoço. Almoçou. Sem o que fazer ela foi cuidar do jardim e da parte de fora da casa. Coisa que demorou até umas quatro horas da tarde. O marido chegava às oito.

Ligou a TV. Ela realmente não gostava dos programas que passavam na parte da tarde. Não gostava mesmo. E além de tudo sua TV tinha 99 canais, só 18 deles pegavam, porém só sete realmente prestavam, na medida do possível. Logo desligou. Resolveu ir tomar banho e se arrumar. Assim o fez. Cinco e meia.

Ainda preocupada com o que fazer para passar o tempo, adiantou o que pôde da janta, arrumou a mesa e começou a fazer a comida.

Seis e meia e ela já tinha feito absolutamente tudo o que ela podia. Pensou então em conversar com as amigas vizinhas. Ninguém em casa. Nenhuma novidade. Sentou no sofá sem nada em mente. Olhou para o computador. Pensou nas músicas. Num ímpeto de coragem e curiosidade ela foi até ele e ligou. Tá, não foi assim tão rápido, ela demorou certo tempo até descobrir como se ligava aquilo.

Com a tela brilhante ligada ela fez o que lembrava do que seu marido fazia. Clicou num lindo desenho de um burrinho marrom muito simpático. Pelo que ela lembrava era esse o tal novo programa que “descia” músicas. Não muito burra e lembrando dos lugares onde seu marido clicava, ela tentou no botão “pesquisar”. No “nome” ela colocou uma de suas músicas preferidas dos seus tempos de discoteca. Clicou “Iniciar” e não deu certo. Depois de muito fuçar ela descobriu o raiozinho amarelo no canto da tela que dizia: conectar. Lá ela clicou e depois novamente em “pesquisar”.

Milésimos de segundos depois uma incrível lista de mais de 150 nomes surgiu na sua frente. Ela conhecia todas as músicas que ali apareciam. Foi clicando nelas até quase todas ficarem vermelhas. Havia descoberto como era bom baixar músicas.

Ele chegou em casa.

- Cheguei!

- Quem é?

- Como assim quem é? É o Brad Pitt, sempre quis conhecer sua casa… Quem mais entra todo dia em casa nesse mesmo horário?

- Ahhn…

Ele estranhou muito, mas continuou. Adorou entrar e ver tudo limpinho e na mesma hora veio a idéia de propor que ela só trabalhasse nos fins de semana. Chegando ao quarto ele quase teve um derrame.

- AAAAAAHHHHHH!!! MULHER! O QUE VOCÊ TÁ MECHENDO AÍ?

- Ei! Calma lá! Eu tô só baixando umas musiquinhas!

- BAIXANDO UMAS MUSIQUINHAS???

- É, ué! Algum problema?

Ele parou. Para falar a verdade ele já estava parado. Ele parou para pensar um pouco. Depois de algum tempo decidiu:

- Claro que tem! Você lá sabe mexer aí?

- Mais ou menos. Tô aprendendo!

- Como assim “tô aprendendo”?

- Ué, não tinha nada pra fazer. Aí resolvi ver se conseguia achar umas músicas que eu gosto!

Ele já não sabia se a idéia dela trabalhar só aos finais de semana era assim tão boa. Se ela soubesse que isso tinha passado pela cabeça do marido, teria aceitado de primeira!

Ele não falou mais nada e foi sentar pra comer. Esperou, esperou, esperou. Ela não saía daquele computador. Quinze minutos depois ele ainda estava esperando.

- Fátima Gutter! Saia desse computador! Agora!

- Mas mô! Não foi você quem disse que a gente tinha que usar o máximo que puder? Então, eu só estou ajudando!

E foi assim que ele viu que comprar aquele computador tinha sido a idéia mais idiota da sua vida. E também aprendeu como o computador pode ser uma coisa extremamente repugnante.

Já ela aprendeu uma coisa que mudaria a vida do quase tranqüilo casal: baixar músicas.

Ela adorou.

Independente da vitória do São Paulo, de um Papai Noel japonês vencedor da corrida de renas, do Bush na Indonésia, dos sem-teto de Gaza, das mortes no Iraque, de protestos no Tibete, do nevoeiro em Belarus e do incêndio na favela do Sapé, Flávio precisava viajar.

Viajava sempre a trabalho. Sempre. Já tinha o traquejo de voar. Sabia de praticamente todos os banheiros dos aeroportos de Curitiba, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Conhecia várias aeromoças e tomava café com os pilotos.

Porém, desde outubro ele tem ficado bastante nervoso e com muita dor nas costas.

- Dormir nesses bancos de aeroporto não é muito confortável – dizia a quem perguntava por que ele estava sempre com as mãos nas costas e com uma cara estranha.

Esse constante atraso dos vôos o deixava com vontade de sair chutando todos os aviões que encontrasse pela frente. Já tinha perdido seis reuniões bastante importantes e quatro não tão importantes assim.

Dessa vez ele ia de Congonhas até Brasília. Tinha um almoço chique com uns caras chatos e cheios de dinheiro. Não pretendia perder aquilo. Com a passagem na mão foi esperar o vôo.

Não deu outra: atrasou.

Era pra ele sair às seis e meia. Eram sete e quinze e o vôo não tinha saído. Depois de ter esgotado todas as opções possíveis e imagináveis de se ficar sentado ele resolveu dar um pulinho na tela onde os vôos eram mostrados.

Depois de desviar de algumas pessoas que dormiam no chão ele chegou à tela. Em pé e olhando pros horários dos vôos estava uma mulher, aparentemente com a sua idade, cabelos longos e cacheados, olhos de um incompreensível castanho, estatura média, pele nem muito clara e nem muito escura. Bonita. Usava uma saia e uma blusa que sem querer combinavam perfeitamente.

Parou ao lado dela para checar a tela. Ela não parecia muito feliz, mas também não aparentava dor na coluna.

- Quanto tempo você está esperando aqui? – perguntou ela.

Ele se surpreendeu com a pergunta. E gostou.

- Eu? Hã… Umas duas horas e meia. Era pra eu ter saído às seis e meia. E você?

- Nove horas.

- Nove horas!?

- Nove horas. – disse ela, melancólica.

- Uau! É muito tempo! – comentou ele e logo se arrependeu. – Hã… você voa sempre?

- Pelo menos uma vez por semana.

- Trabalho?

- É.

- Eu também.

Ficaram num silêncio que ele achou revoltante. Ela não estava nem aí.

- Já pegou um atraso desses? – perguntou ele.

- Até hoje não.

- Cansativo né?

Ela olhou para ele e novamente ele se arrependeu de ter comentado.

- Tentou ler alguma coisa? – tentou ele mais uma vez.

- Sim, mas até isso acaba cansando. Depois fui comer. Depois fui conhecer melhor o aeroporto.

- Adianta por um tempo.

- Pouco tempo.

- É… E palavras cruzadas?

- Já tentei. Fiz três revistinhas.

Ele não falou, mas nunca tinha feito palavras cruzadas. Não por falta de tentar, ele era péssimo nisso.

- Você vai a alguma reunião? – perguntou ela.

- Sim, se der tempo. E você? Reunião também?

- Não.

- Passeio?

- Não.

- Então…

- Casamento.

Ele não entendeu qual a ligação do trabalho dela com casamento.

- Ah! – disse ele – atrasar pra casamento é complicado!…

Ela respondeu um “é” que o fez desistir de comentar qualquer outra coisa. Viu que o papo não ia pra frente e resolveu voltar ao seu banco.

Já sentado, depois de um tempo, a mulher veio até ele e falou:

- Você trabalha no quê?

Sem entender direito ele começou:

- Bom… Eu trabalho numa empresa…

- Tem alguém sentado nessa cadeira? – interrompeu ela inesperadamente. Ela apontava para a cadeira ao lado dele onde se encontravam suas pernas.

Surpreso ele gaguejou e disse que ela podia ficar a vontade. Tirou as pernas.

Ela foi sentando e dizendo:

- Meu nome é Laís, e o seu?

- Hã… Flávio.

- Oi Flávio! Será que eu posso ficar aqui com você e conversar? Os cinco minutos que agente conversou ali em pé foram os que passaram mais rápido!

Desnorteado e achando que na realidade estava dormindo em cima do braço ele respondeu:

- Sim! Por mim tudo bem! É bom ter com quem conversar nessas horas.

- É! – respondeu ela – Você tem família?

- Não.

- Não? Puxa, que pena… Nem namorada, noiva?

- Nada.

- Humm…

- E você?

- Minha mãe é viva e tenho um irmão.

- Sei.

- Não tenho namorado nem sou casada.

Ta. Aí ele realmente estranhou. Levantou, deu dois pulinhos, se beliscou, viu que aquilo era verdade, olhou para a moça, viu que ela realmente era linda, principalmente sorrindo como estava agora. Sentou novamente.

Eles conversaram por duas horas e meia até que chamaram o vôo dela.

Perdidamente apaixonados um pelo outro a idéia de ir embora não era das melhores. Estavam tão bem juntos.

Porém o problema não era assim tão grande, sendo que eles descobriram que moravam no mesmo bairro e freqüentavam a mesma padaria.

Marcaram um encontro pra quando voltassem e se despediram.

Ainda tentando entender se aquilo não era algum tipo de delírio ou miragem ele voltou ao seu banco e pensou, pensou, pensou. A única coisa que lhe vinha à mente era que tinha achado a mulher da sua vida.

E eu sou testemunha viva (sim, eu, o narrador) do quão inusitado foi o início desse relacionamento e o quanto ele dá certo e dura até hoje.

Como? Ora, fácil: eu sou o cara que estava sentado ao lado do Flávio. E fui eu que não consegui dormir com aquelas duas figuras pateticamente felizes conversando ao meu lado por mais de duas horas!

Quando ela foi embora pensei que teria sossego, foi quando ele voltou e começou a me narrar o apaixonante e inusitado acontecimento.

Desisti de dormir e ouvi. Gostei da história e vi que ele era um cara gente boa e que realmente estava amando, seja lá o que isso signifique.

Desafiando as probabilidades descobrimos que trabalhamos no mesmo prédio e que eu morava no bairro vizinho ao deles.

Atualmente nós, sempre que possível, almoçamos junto com o pessoal do prédio e ele sempre nos diz, todo feliz, como vai sua relação com a Laís.

Os dois se merecem.

Falando em almoço com o pessoal do prédio, foi num desses que eu conheci a Miranda, num episódio talvez até mais improvável que o do Flávio. Mas aí já é história pra outra hora.

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