Um dia desses um amigo meu me contou:

“Sabe que hoje eu tive que entregar comida prá lá do km 48 [ele trabalha em cozinha], aí eu peguei comida, passei no centro da cidade, fiz o que precisava e lá pra uma hora da tarde eu saí.

Tinha que estar no lugar de entrega às duas e meia. Tinha um caminho de quatro quilômetros até o lugar, sabe onde é, né? Carreguei o carro e fui.

Cê sabe que eu não tenho celular, né?

Então, saí do centro da cidade, entrei na rodovia e de repente um carro maluco passa correndo que nem louco na contramão. Passou por aquelas curvas perigosas mais rápido que não sei o quê!

Quando a curva já tinha escondido o carro eu ouvi um barulhão! Uma batida! Só podia ser. Andando mais um pouquinho eu vi que era o tal carro que tinha batido.

Pronto, já viu né? Parou tudo.

Era duas horas. Aí não tinha o que fazer a não ser ajudar… E passava carro da polícia, ambulância, várias coisas e tal… E o tempo também passava e ninguém liberava o trânsito!

Aí eu soube que todo mundo já tava ficando preocupado comigo… Meus amigos já tavam desesperados tentando ligar pra tudo que é canto!

As mulheres que eu ia entregar a comida também… Ninguém mais sabia onde eu tava.

Também, com aquele acidente que nunca liberava a estrada…

Aí deve ter sido ajudando lá que eu perdi os óculos… Sei lá.

A estrada liberou lá pras duas e trinta e cinco… É lógico que eu não consegui entregar a comida em tempo… Fazê o quê.

Voltando pra cá eu vi que tava todo mundo preocupado e tal.

Meus amigos do trabalho me disseram “cara, não dá pra você não ter um celular! A gente tá aqui com um celular pra você, cê tem que ter um celular!”

Aí eles me deram um celular. Celular não: radar.

Né?”