6/12/2006Cantando a loucura dos outros

O dia até ali estava dos melhores. Ele não tinha ganhado nada, não estava de férias e não tinha sido dispensado do trabalho. Era só que tinha acordado com o pé direito. Seu dia foi completo e igual aos outros. Com direito a meia hora de almoço, uma pilha imensa de folhas em cima da mesa, aquele amigo idiota tirando sarro de sua gravata e a recepcionista do escritório feia como sempre olhando pra ele de um jeito estranho.
Nada diferente. E ele estava contente. Não sabia por que, mas estava. Estava no ônibus voltando para casa. Ouvia música. Sorria.
Alguém pediu para que o ônibus parasse. Ele não via quem era, o ponto estava cheio. A porta da frente abriu e a de trás também. Foi quando ele a viu. Uma senhora baixa e surrada pelo tempo. Cabelos estranhamente longos, esbranquiçados e lisos. Soltos. Vestia algo que parecia um roupão azul. Uma tiara azul também. Era magra.
Ela entrou no ônibus pela porta de trás e na hora cantava. Ele não ouviu o que, mas cantava. Sentou na sua frente, ao lado de uma moça gorda que vestia vermelho.
O ônibus saiu e a senhora começou a cantoria:
“Como eu queria ser a morte!”
Ele ouviu isso e tirou os fones do ouvido. Olhava para ela.
“Mas Deus vem e me levará para o céu!”
Ele só ouvia.
“Deus é a salvação!”
E assim por diante. Ele sorria. A que vestia vermelho ao lado da velha se espremia cada vez mais no vidro, sua cabeça o mais longe que lhe era possível.
Nos bancos do lado da velha sentava uma jovem com suas sacolas. Não era magra.
Ele só olhava. A velha só cantava.
A jovem, de vinte em vinte segundos, olhava para a velha com um olhar de absoluto estranhamento.
A mulher de vermelho só se espremia. Ele só olhava. A velha só cantava.
Um garoto puxou a cordinha para que o ônibus parasse. Ao sair olhou para a velha, curioso. E a velha cantava.
Ele, a cada segundo ia gostando mais da situação. Que dia!
A velha cantava cada vez mais alto. A que vestia vermelho provavelmente não sabia que tinha a habilidade de contorção que mostrava ter naquela hora.
A jovem não sabia para onde olhar. E cada pessoa que saia do ônibus ou entrava, olhava para a velha desejando ser exatamente quem eram.
E a velha cantava desafinada. E não aparentava querer parar.
Ele observava e sorria.
Agora ele sairia do ônibus. Puxou a cordinha e não olhou para a velha. Somente sorria. A velha parou um pouco. Ele desceu e ouviu-a recomeçando a cantoria.
Para ele os dias que viriam depois daquele até o último de sua vida passaram a ter outro astral. Por mais que as coisas parecessem absurdamente rotineiras, chatas ou tristes. Ele descobriu que, independente dos outros e da música, pode sempre recomeçar cantando.
