Embaralhando

Estranhos casos de sábado noite

by Luis on dez.05, 2006, under Historietas, Todos

Duff!Era sábado. A idéia de ir ao cinema foi dele. Ele ligou para ela e disse para chamar as amigas. Ele ligava pros amigos. Ia ser legal, fazia um certo tempo que eles não saiam juntos.

Tudo tranqüilo e resolvido. Quatro carros. Toda a galera. Filme? “Ah, a gente vê lá!”

Filme bom. Melhor ainda é rever o pessoal. A conversa merecia uma prorrogação.

- Alguém aí tá com fome?

A idéia de ir ao bar foi dela.

Juntaram várias mesas, sentaram fazendo muito barulho, discutiram bastante até pedirem algo. Ou seja: testaram a paciência do garçom.

- Escuta. – disse ele – Anota aí: uma porção de polenta frita… Não, espera. Uma não. Duas! Isso! Duas porções de polenta frita com queijo ralado, hã… cinco espetinhos de carne e cinco de queijo. Duas porções de batatinha frita com cheddar e seis Brahma.

- OK, senhor. Algo mais?

- Não se esqueça dos copos, estamos em quinze!

- OK, senhor. Algo mais?

Ele olhou para o garçom com aquela cara de quem está perguntando: “é só isso que você sabe falar?”. O garçom, por sua vez, olhava para ele com aquela cara de quem diz: “aqui só me pagam pra falar isso.”

Embaraçosos segundos depois ele desistiu e voltou a conversar. Já o garçom foi fazer o que pagavam para ele fazer.

Algum tempo e várias cervejas mais tarde o celular de um dos amigos dele tocou.

- Alô? Oi! Como você tá, linda? Hã… Uau! Legal!… Eu? Então, to no Caneco Largo… É! Quer vir pra cá? Ah… Mas não…Não, não. Sem nenhum problema! Venham todas! OK! Tá! Estamos esperando! Beijo!

Mais gente. Amiga de amigo. Isso normalmente soa bem! Ele não esperava, mas gostou da idéia. Olhou para ela, que retribuiu com um olhar de indiferença.

Mais mesas. Mais cadeiras. Mais motivos para o garçom se perguntar o que diabos estava fazendo naquele emprego.

Minutos depois:

- Oi gente!

Vários “oi” foram ditos, vários beijos distribuídos e vários focos de esperança surgiram nos rostos masculinos solteiros e em alguns rostos masculinos comprometidos.

A amiga do amigo e suas amigas haviam chegado.

Ele amava ela de paixão e a recíproca era verdadeira. Sendo assim a última coisa que passava pela sua cabeça era ter um caso com a amiga do amigo.

Porém a tal amiga sentou ao seu lado. Nunca tinham se visto antes e a conversa fluiu naturalmente até que o garçom interrompeu:

- Tudo certo, senhor? Querem mais alguma coisa?

Aquela história de ser chamado de senhor não era legal.

Ele virou para as desconhecidas e perguntou:

- Vocês vão beber, não é?

Elas confirmaram e ele virou para seus amigos:

- A gente pede mais alguma coisa?

Um monte de gente falando, nada sendo resolvido e de repente o assunto faz a curva.

Tempos depois e com a perna cansada o garçom desiste de esperar e vai embora.

- Ei gente! – diz ele – O garçom até já foi! O que vamos pedir além das cervejas?

E algumas coisas foram pedidas. Minutos depois essas algumas coisas chegaram. As recém chegadas beberam e ficaram felizes.

Mais tempo e cerveja depois os assuntos eram variados e perambulavam entre uma amiga dele cantando em pé para quem quisesse ouvir e várias indiretas bem diretas da parte daqueles que não queriam que a noite terminasse ali naquele bar.

Ele olhava para ela e ela para ele. Sintonia perfeita. Amor verdadeiro. Silêncio.

- Gente! – pronunciou a amiga do amigo no ouvido dele – Só eu fumo aqui? Ninguém mais fuma? Só eu que vou fumar?

Ele, compreensivo:

- Pessoal! Alguém aqui fuma para fazer companhia pra ela?

Ninguém ouviu.

- Pois é – disse ela – eu fumo sozinha então.

E ele voltou para sua apaixonante troca de olhares.

- Você tá dirigindo, né? – perguntou a amiga do amigo para ele.

- Eu?

- É!

- Sim, eu vim dirigindo um dos carros.

Do outro lado dele ela prestava atenção no que acontecia.

- Seguinte – continuou a amiga do amigo – se você atropelasse um cachorro, o que você faria? Continuaria seu caminho ou parava para ajuda-lo?

- Humm – meditou ele sem interesse – Eu deixaria ele ali e continuaria.

- É. É o que eu faria. Mas sabe que semana passada eu tive um clique e que agora eu sempre vou ajudar os animais que eu atropelar.

Ele virou para ela, que estava adorando a idéia de vê-lo naquele papo de fim de noite imensamente absurdo. Ele piscou para ela, beijou-a e fez sinal para que prestasse atenção.

- Ah, é? Você cuida do animal então?

- Sim!

- Já cuidou de algum?

- Não.

- Mas vai?

- Sim!

- E você não pensou nos gastos que ele pode te dar? Comida, banho, veterinário…

- Hummm – refletiu a amiga do amigo – Não tinha pensado nisso!

- Pois é! – disse ele virando-se para ela e dando o assunto por completo.

- Mas sabe – continuou a amiga do amigo – acho que eu cuido do mesmo jeito!

Ele voltou, de novo, seu olhar para a amiga do amigo.

- Sério? Legal!

- É, eu cuido e depois eu devolvo pra rua.

Ele estranhou:

- Melhor então deixar ele na rua desde o começo, não é?

- Ah, não! Se eu pegar e cuidar e depois devolver alguém pode pega-lo depois e lhe dar uma casa!

- Hummm… Certo.

Ele definitivamente deu o assunto como encerrado e virou-se para ela, que estava já um pouco impaciente. Ele a abraçou, beijou e perguntou se queria alguma coisa.

Mais tempo e cerveja depois e alguns já tinham ido embora.

- Perdão, senhor. – falou o garçom.

- Sim? – indagou ele.

- Temos hora para fechar e…

- Hora para fechar? – gritou um de seus amigos do fim da mesa.

- Sim! – afirmou o garçom.

- Então – continuou o amigo – traga mais duas cervejas!

- Impossível senhor. – disse o garçom.

- Como assim impossível? – gritou o amigo num tom bêbado e bravo.

- Estamos fechando.

Prevendo a confusão ele pagou o garçom e convenceu todos a levantar e a ir embora.

O bar se fechou e, ainda na calçada o amigo se debatia absolutamente bêbado falando:

- Eu quero mais duas cervejas!

Outro amigo, para ver se acalmava o que restava de sóbrio no que gritava, deu um soco em sua barriga.

O bêbado adorou a idéia e devolveu o soco do modo que lhe era possível.

E foi assim que o grande tumulto começou, para a grande felicidade do bêbado e de todos que estavam pulando e batendo. Da rua vieram mais alguns e a festa tinha começado. O garçom, que tinha saído do bar para voltar para sua casa foi o que mais adorou a idéia da briga e começou logo a pular e a bater.

Três pessoas assistiam isso de longe e discutiam o que fazer.

- Sei não se vale a pena esperar isso acabar. – disse a amiga do amigo, um pouco tonta.

- É. – concordou ela, olhando para ele do modo mais apaixonante que ele já tinha visto.

- Então vamos. – falou ele – eu levo vocês para suas casas!

E assim foram até o carro. Ele abraçado nela e a amiga do amigo do lado deles tropeçando de vez em quando.

E de fundo um bando de gente se divertindo.


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