Embaralhando

Mais uma vez…

by Luis on abr.23, 2007, under CONSCIENTIZANDO, Todos

Imagine que você está no meio da aula na sua faculdade. De repente a porta abre, e surge um rosto da fresta, este observa por alguns segundos e depois a porta se fecha. Imagine que momentos depois a porta seja aberta de novo, e o dono do rosto entra na sala armado e comece e atirar em todos.

Você, como todos os outros, tomado pelo pânico, cai no chão e toma a posição fetal. De olhos fechados sua mente divaga entre o porquê de tudo aquilo, a dúvida sobre a sensação de ser atingido por uma bala e o pavor que a terrível situação provoca. Tudo isso permeado pela impalpável vontade de que não estar ali.

Vários tiros e gritos de terror depois, você percebe que o assassino vai embora. Abre lentamente os olhos e aguça os ouvidos. O cenário: colegas seus caídos sem movimentos, outros que ainda no chão gritam e gemem.

Pouco tempo depois a porta se abre novamente e o assassino volta a entrar e atirar, deixando claro que só saiu para recarregar as armas e agora vinha terminar o serviço.

O pesadelo volta à sua pior parte e você daí em diante tenta não pensar em mais nada, em sair do teu corpo.

Algum tempo depois, que você já não sabe quanto, você ouve a porta se abrir e a voz de um homem tomar conta da sala: “Aqui é a polícia, pedimos para todos que tenham condições de andar que se levantem e saiam da sala.”

Você abre o olho e, na medida do possível, se levanta. Percebe que uma de suas colegas também consegue se levantar, mesmo que com dificuldades, pois havia sido atingida por uma bala.

Depois de tudo, descobre que os únicos sobreviventes da sua classe foram você e a menina, e você foi o único que não tinha levado um tiro

Do que todo esse relado se trata? Preciso mesmo explicar?

O nome do assassino? Cho Seung-Hui, sul-coreano, 23 anos. Naquele dia ele matou 32 pessoas em dois prédios escolares. Um recorde que realmente não precisava ser superado. No final ele se matou.

Mas como alguém seria capaz de algo assim?

Cho tinha problema mental, na faculdade era rejeitado, não se relacionava e já havia sido acusado de perseguir e perturbar duas estudantes. Sem contar que também tinha suspeita de tendência ao suicídio. Também já tinha sido indicado para internação.

Juntamos à isso o fato de ter uma irmã em uma faculdade bem melhor que a sua e chegamos à conclusão de que ele poderia se achar tachado de pouco homem, de passivo. Provavelmente se sentia humilhado e já não pretendia se engajar em grupo algum.

Uma combinação dessas, como diz a antropóloga Katherine Newman, “pode ser explosiva”.

E quando chega ao ponto em que a própria pessoa não se acha aceita, acha que os outros o julgam como sendo menos homem que outros, ele passa a procurar modelos de masculinidade. Modelos que, hoje em dia, se materializam em imagens de homens armados, sempre no auge da masculinidade, coisas que a TV, cinema, mídia em geral, mostra sempre.

Junta-se o fato de que adquirir uma arma nos EUA não é a coisa mais difícil do mundo e pronto.

Em uma entrevista, Katherine diz que os colegas de Cho poderiam ter detectado algo e dito para algum adulto para que providências fossem tomadas.

Eu acredito que os colegas poderiam ter ainda feito mais: poderiam ter se aproximado dele. Alguns alunos diziam que ele Cho nunca participava dos seminários da classe, que nunca falava com ninguém e que por isso o contato era difícil.

Mas eu duvido que fosse tão impossível a ponto de ninguém nunca falar um bom dia.

Tá certo: ele podia estar em um estágio psicológico onde ele mesmo bloqueava 100% dos contatos pessoais, mas eu não acho que alguém tenha se esforçado para construir um relacionamento saudável com Cho.

De qualquer forma fica aí algo para pensarmos: até que ponto vai nosso preconceito? Até que ponto eu não falo com alguém porque tal pessoa é “diferente”? Até que ponto eu respeito todos? Até que ponto eu dou um sorriso quando passo ao lado de alguém? Até que ponto isso não tem nada a ver comigo?

Como o próprio Cho disse em um dos seus textos: “isso não precisava acontecer”.

Como sempre, depende de nós.


3 Comments for this entry

  • tiagho d. BRAZIL

    Pois é cara, a estrutura social norte americana é incrivelmente responsavel por tudo que sofrem, desde tiroteios em unidades de educação, segregação racial ou etnico, terrorismo e guerra.
    O engraçado é eles ficarem atonitos sem saber como que essas coisas acontecem.

  • Messias Vilela BRAZIL

    Olá! muito bom seu blog viu? vc escreve muito bem…. consegue prender a atenção de um a pessoa contando uma história real e ja noticiada! mas muito boa a reflexão! parabens e me visita lá se der! beijos!

  • * BïåNÃ¥ * BRAZIL

    Vi seu blog em uma comu lah do Orkut…
    E como de costume sempre fa;o comentarios…
    Adoro espiar!
    Legal seu blog…

    **Bjs!**

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