Embaralhando

Sobre Locutores, Desejos e Boas Notícias

by Luis on mar.12, 2009, under Todos

E lá estava eu, não muito feliz da vida, em silêncio, sozinho, colocando os produtos dentro da caixa, cansado por não ter dormido bem na noite passada e por não agüentar mais trabalhar em pé quando, do meio turbilhonado dos meus pensamentos, consegui escutar uma frase do radio ligado na minha frente: “Você quer uma boa notícia?”

Da pra entender porque eu ouvi só aquela frase, né? Claramente uma notícia boa me faria um tanto mais feliz do quanto eu estava.

A corrente de pensamentos que me veio nesse instante foi absurdamente veloz, exatamente como uma corrente de pensamentos deve ser. Parecia que o locutor esperava eu terminar a minha lista imaginária de boas notícias que eu queria escutar naquele momento pra começar a falar.

Passavam pelo meu telencéfalo coisas do tipo “Ele vai dizer que o presidente morreu e que foi imediatamente decretado que todo tipo de trabalho deve ser interrompido por luto (se bem que o Berlusconi, coitado, o máximo que acontece se ele morrer é ser decretado um feriado festivo. Já o Lula, Bom… Deixa pra lá). Ou quem sabe o locutor diz que o sindicato dos trabalhadores instituiu um decreto dizendo que todos aqueles que trabalham mais de seis horas em pé terão direito uma poltrona particular nos seus respectivos postos de trabalho.

Mas pode ser também que ele me diga algo do tipo: A faculdade tal, a melhor de cinema da Europa, exibiu um manifesto dizendo que as inscrições para estrangeiros são gratuitas e que para os brasileiros a mensalidade é reduzida em oitenta por cento. Isso sim me faria feliz. Também não seria ruim ouvir alguma coisa do tipo: Apple lança uma promoção onde MacBook custa somente 450 euros!

Ou quem sabe: Não se preocupe, quando você voltar pra casa sua namorada vai estar te esperando sentada no sofá com aquele conjunto que você comprou pra ela e com aquele filme novo que acabou de chegar em DVD e que você perdeu no cinema.

Ouvir que a minha avó preparou um pudim de leite condensado e deixou na minha geladeira também ia ser muito bom!

Bom… Na verdade eu gostaria mesmo era de ouvir assim: “A vida é bela, você vai ver que todas as suas preocupações e o seu cansaço vão sumir em quatorze segundos.”

Tudo isso eu pensei no intervalo de tempo entre a chamada da boa notícia e a tal notícia, intervalo esse que durou o respiro do locutor. E eu ainda tive tempo de terminar meus pensamentos com a frase: “Sim! Eu quero ouvir uma boa notícia!”

Logo em seguida o tal locutor deu, finalmente, a boa notícia. Ele, com uma voz potente, alta, clara e realmente empolgada, disse em poucas palavras que uma marca de carro tal vendia um carro X com taxa zero. E repetiu isso umas quatro vezes.

Quem aquele cretino pensa que eu sou pra tentar me convencer que aquela era uma boa notícia? Sei lá qual taxa era zero, e não quero saber, nunca quis.

De qualquer forma eu sabia que a probabilidade do locutor dar uma notícia realmente boa eram mínimas, e logo em seguida (depois de ter mandado o cara passear) eu voltei minha atenção para a caixa que estava fazendo e os meus pensamentos continuaram a viagem que estavam fazendo até que chegasse alguém com quem eu pudesse conversar.

No final das contas a boa notícia foi ver que o dia tinha terminado bem, apesar do cansaço.

E isso locutor nenhum vai me informar. Idiota.


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